O Palácio de Inverno (John Boyne)

Esse autor já entrou na minha categoria "muito bom" - como diria Hazel Grace, leria até a lista de compras dele. Esse é mais um romance de John Boyne com um fundo histórico; porém não é voltado ao público infantil como O Menino do Pijama Listrado (que na minha opinião é um dos melhores que já vi, capaz de tratar um tema super tenso de uma maneira leve, como uma fábula).
Aqui temos a história de um jovem russo, Geórgui Jachmenev; acompanhamos a história dele em dois momentos, sua juventude na Rússia czarista e sua velhice em Londres, ao lado de sua esposa Zóia. É interessante como essas duas linhas narrativas se encontram, pois Jachmenev idoso (com Zóia a beira da morte) vai se rocordando de fatos cada vez mais antigos, enquanto que a narrativa de sua juventude se estende cada vez mais em direção ao presente - quando elas se cruzam, temos a solução de um mistério dentro da narrativa.
Jachmenev, quando jovem, vivia em aldeia muito pequena na Rússia. Filho de pais totalmente frios com seus vários filhos, seu amor está voltado para a irmã mais velha descrita como bela, inteligente e ambiciosa; mas com um fim triste (ou não, se considerarmos que a personagem principal perdeu o contato com os parentes quando deixou a Rússia).
Após evitar o assassinato do irmão do czar, o rapaz acaba sendo contatado para trabalhar no palácio, sendo segurança do czaréviche Alexei. Lá ele se maravilha com o luxo da corte, seus hábitos e se apaixona por uma das princesas, Anastácia.
Nessa narrativa (que segue para o tempo presente), há várias tensões: a doença do menino Alexei, a preocupação dos seus pais diante de um filho hemofílico e a responsabilidade que deve (ou deveria) ser lançada sobre ele; além da tensão sobre a Revolução Bolchevique, que todos sentem sua aproximação, mas insistem em viver no mundo fantasioso do palácio, e a Primeira Guerra Mundial.
Claro que há um destaque ao romance proibido de Anastácia e do jovem Geórgui, as reflexões de um jovem ainda puro e pobre diante de uma vida de luxo, oportunidades e desejos.

A outra narrativa se inicia com o mesmo Geórgui se lamentando pela doença de sua esposa Zóia. Ele já está velho, aposentado e vive em Londres, onde ele foi bibliotecário por muitos anos.
Sabemos que ele e Zóia tiveram apenas uma filha, que faleceu de maneira trágica deixando um neto para eles. Em alguns momentos ele comenta sobre a semelhança do garoto com o pai de Zóia.
Nessa linha narrativa, que segue em direção ao passado, vemos que Zóia é uma mulher presa a depressão e com um sentimento de culpa incrível; o que alimenta sua depressão. Um ponto sobre isso é o fato de que, mesmo percebendo que estava com câncer, ela não procura tratamento pois deseja a morte para si.
Aqui acompanhamos, através de recortes, a vida do casal após a morte da filha, as relações com o genro, o neto e como eles encaram a juventude; o período sem filhos deles (pois Zóia não conseguia engravidar), a infância da filha... Por fim nos deparamos com o casamento deles em Paris.
Há vários momentos históricos que ligam essa parte da narrativa, mas um dos mais marcantes é a Segunda Guerra Mundial, que acaba expondo os problemas dos ingleses com estrangeiros residentes no país (a xenofobia é um assunto); mas há também as discussões sobre se o povo russo se tornou mais livre com a URSS ou não.

Um ponto positivo é o mistério que gira em torno de o que aconteceu com Anastácia e como Geórgui conheceu Zóia, o autor consegue manter os mistérios e interligar tudo de uma maneira mágica... Há dois capítulos do livro que estão profundamente interligados, que fazem muito sentido quando sabemos a resposta para o mistério.
Um ponto negativo é que, na minha opinião, Boyne podia ter dado mais ênfase aos conflitos relacionados a Revolução Bolchevique. Ele não trabalha o porquê da revolta popular, o que o czar fez de errado para despertar a fúria de seus súditos; em raros momentos ele nos dá pistas ou pinceladas através de pequenos comentários de Geórgui ou de outras personagens da trama.
Também acho que ele trabalha pouco uma questão na obra [MOMENTO SPOILER], a filha de Jachmenev morreu atropelada e ele não consegue perdoar a motorista pelo ocorrido - apesar dela não ter de fato culpa, pois a jovem havia sido imprudente. O autor monta uma certa tensão em torno do fato, sendo que a mulher chega a ir falar com Geórgui para pedir perdão; você fica esperando algo mais sobre a relação dos dois e... nada! Ele simplesmente não comenta mais nada sobre o assunto.

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