Cidade da Penumbra (Lolita Pille)
Li esse livro em um período em que estava viciada em ler ficções científicas sobre futuros apocalípticos (ou pós apocalípticos). Nessa época li Fahrenheit 451, Admirável Mundo Novo e só não li 1984 porque me acabou o tempo e a paciência; esse livro acabou me surgindo nas mãos nesse período, quando vi as aquisições mais recentes da biblioteca municipal.
A autora é acusada sempre de ser muito rasa, criar personagens pouco profundas e viver mais de frases de efeito e cenas chocantes que de conteúdo mesmo. Mas curti Cidade da Penumbra por esses fatores, talvez se ela super trabalhasse as personagens a narrativa ficasse "pesada" demais (mesmo com essas críticas levei um bom tempo para lê-lo, e o livro não é grosso).
Não sei se posso dizer que Cidade é uma ficção científica, mas acredito é uma ficção social. Isso porque seu futuro sombrio (literalmente!) não se diferencia do nosso apenas pela tecnologia, mas principalmente por seu comportamento, valores e moral; ela é uma expansão da realidade atual - com sua busca por beleza, fama, status e prazer pessoal.
No período narrado pela autora, a Terra está recoberta de uma poeira de poluição tão grande que encobre o Sol e, devido as novas tecnologias empregadas pela indústria, são poluentes que não se consegue extrair: ou seja, estamos perdidos!
Diante do caos instaurado, as grandes corporações assumem as rédeas do governo liderando a formação de um novo mundo, com novas regras para lidar com a infelicidade. Assim se cria uma sociedade onde todos devem buscar sua felicidade, mas que felicidade é essa? Isso a sociedade determina: prazer próprio, perfeição estética, consumir (para quem conhece sobre Marx, lembra que a liberdade capitalista é a de consumir apenas?).
Aos poucos ela vai traçando essa sociedade doentia, tudo sob o ponto de vista de um policial, Sid Paradyne. O livro se inicia com ele tentando investigar o suicídio de um obeso - oprimido pela lógica social que o exclui e persegue. Durante sua tentativa de entender o porquê do suicídio, Sid se depara com várias dúvidas e percebe que a sociedade plástica na qual está inserido (e destesta) pode ser fruto de uma grande mentira; diante dessa "revelação" acaba cruzando o caminho de um antigo amigo, Shadow Smith (morto) e sua bela e misteriosa irmã (Blue).
Ao longo da narrativa "passeamos" por esse mundo escuro, claustrofóbico criado por Lolita. Aqui não há regras, tudo pode ser vendido ou comprado... Há uma certa discussão inclusive sobre se encontrarmos a satisfação das nossas vontades (riqueza, matar, sexo, beleza eterna) realmente seríamos felizes.
Alguns pontos de destaque são a pedofilia e sadismo praticados (e aceitos) pela sociedade de Clair Monde (a cidade a qual o título se refere); os Labos, onde são praticadas experiências médicas e farmacêuticas com crianças; a questão das drogas, legalizadas e vendidas pelas grandes corporações; as "estrelas", atrizes de cinema que devido as novas técnicas cirúrgicas nunca envelhecem e vivem em palecetes escuros e cheios de espelhos.
O final do livro e o mistério em torno de explosões que começam a acontecer em certo ponto da narrativa por toda a cidade também são interessantes - apesar de poder deixar muitos confusos, mas acho que por já ter lido outros livros em que os autores fazem o possível para serem ilógicos, não me choquei.
Enfim, curti o livro e recomendo para quem está de bem com a vida, porque ele é um pouco chato e a narrativa doentia põe a gente "pra baixo". Mas é útil para fazer várias reflexões sobre os valores da nossa sociedade e para onde estamos caminhando.

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