A menina que não sabia ler (John Harding)
Gostei demais do livro, o final foi surpreendente; porém fiquei agitada e irritada- o final é daqueles que temos vontade de entrar no livro e bater na personagem principal.
A história é narrada por Florence, que vive negligenciada por seu tio em uma mansão juntamente com seu irmãozinho( meio irmão, na verdade) Giles e a criadagem da casa. Ela não sabe muito sobre seu passado, nem sobre sua família - ela não conhece seu tio, por exemplo, e sabe pouco sobre a morte do pai.
O livro é dividido em duas partes, na primeira Florence (ou Flo, como seu irmão a chama) "se apresenta", narrando um pouco sobre sua história tão repleta de mistérios.
O principal destaque dado a personagem é o fato de que seu tio não deseja que aprenda a ler - segundo ela o motivo estaria ligado a antigas questões amorosas, pois uma antiga namorada o havia desprezado quando se tornou uma mulher letrada. A proibição a deixa intrigada e pouco a pouco aprende a ler sozinha; sua felicidade é completa quando descobre a biblioteca da casa( empoeirada e esquecida) e passa a viver escondida no local.
Sua rotina de alegrias constantes é interrompida quando Giles vai para a escola, sendo afastado dela. Apesar da ausência do irmão poder ser uma chance para praticar melhor a leitura, há a entrada de uma nova personagem: Theo, o filho asmático dos vizinhos, que se apaixona por Florence e se torna seu amigo. A garota despreza Theo, ainda mais porque suas visitas a obrigam a sair de seu esconderijo (inicialmente a biblioteca, depois uma torre da casa) para recepcioná-lo, o que encolhe seu tempo de leitura e deixa em constante perigo. É interessante observar sua mente sempre voltada aos livros e a devorá-los apenas, ela se revela aborrecida com tudo o que interfira nessa paixão.
Achei interessante também o fato que Theo é tão negligenciado quanto Florence; até sua aparência não é tão diferente da narradora - como percebemos no único trecho em que ela se descreve diante do espelho.
No finalzinho da primeira parte, Giles volta a casa pois é expulso da escola, por não conseguir acompanhar os demais alunos, mas Florence especula que é devido os meninos mais velhos maltratarem seu irmão.
É contratada uma preceptora, a qual morre no lago na propriedade após um acidente no qual Flo estava presente. Propositalmente a cena é pouco detalhada e apenas através de comentários de Flo entendemos o que aconteceu - mas muito gradualmente.
Na segunda parte do livro, encontramos Florence às voltas com a nova preceptora, a srta. Taylor. Ela acredita que a mulher deseja separá-la de seu irmão e luta para impedí-la.
Durante a narrativa dessa segunda parte também sabemos mais sobre o acidente com a primeira preceptora, sobre o relacionamento com Theo (e sobre a vida dele) e a evolução das suspeitas de Flo - a narrativa é de não deixar a gente dormir pensando nas possibilidades.
Ela acredita que a preceptora é uma bruxa, que deseja roubar seu irmão. Ela passa a crer que ela pode vê-la através dos espelhos da casa, que levita e deseja seu mal.
Nessa segunda parte não há mais o foco sobre os mistérios do passado das crianças, mas sim sobre a tensão gerada pela srta. Taylor, sua identidade verdadeira e sobre a relação de Flo e Theo.
Depois de terminar o livro, ficam algumas perguntas (e aí está o que torna o livro super interessante):
1) Você questiona a sanidade mental de Florence - comecei a questionar perto do fim. O que ela acha é real? Até aonde?
2) Quem era a srta. Taylor? Quem Flo achava? Uma desconhecida? A mãe de Giles (pois eles são irmãos pelo lado do pai... A mãe de ambos teoricamente morreu). O modo como a srta. Taylor trata o menino e algumas cartas e papéis encontrados por Florence na gaveta da governanta deixam margem a essa especulação.
3) Sobre a família de Florence... No começo do livro ela descobre algumas fotos que dão margem a perguntas sobre seu tio e sobre as esposas de seu pai. Percebemos que a personagem principal é uma garota iludida, mas há sempre um questionamento sobre o porquê dessa "ilusão" ou se ela de fato não sabe dos fatos.
Uma das influências do autor para escrever a obra foi o livro de Henry James, A Volta do Parafuso (um clássico do terror). Nele também temos uma personagem central feminina narrando sobre o abandono de duas crianças por seu tio rico; porém o mistério gira em torno da morte da preceptora anterior e do jardineiro da casa, além de fatos sombrios que acontecem (ou não) na mansão.
Eu não li esse livro (até tentei, mas enfim...). Mas apenas pelas resenhas você traça um parelelo.
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