Trilogia: Jogos Vorazes


Já falei da trilogia de Suzanne Collins que rendeu quatro filmes - graças a mania de se dividir o último livro em dois filmes (vide Harry Potter, Crepúsculo...). Ouvi falar do livro justamente quando os filmes começaram a ser lançados e achei muito idiota a ideia de um livro sobre crianças que lutam até a morte; contudo após comentários positivos por parte de uma amiga e de uma prima, resolvi dar uma chance.

A autora tem uma escrita que me agradou, ela é ágil (o que acho importante para o público alvo) e consegue amarrar os capítulos com aquela cena que te deixa chocada (#AvenidaBrasil kkk)... Li o primeiro livro em único dia - fiquei com dor de cabeça, mas é só um detalhe.
A trilogia é formada pelos livros Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança e se passam em um futuro distópico, onde os Estados Unidos não existem mais e em seu lugar surge Panem. O novo país é formado por uma Capital que é servida (literalmente) por 13 distritos, cada um responsável por fornecer um item à capital, comida, remédios, carvão... Em um período anterior ao da história (os Dias Escuros), os distritos se rebelaram sem sucesso, como punição o 13º foi completamente destruído e foram instituídos os Jogos Vorazes.
A autora baseou o formato dos jogos no mito de Teseu e o Minotauro, onde sete jovens e sete donzelas eram sacrificados anualmente ao monstro de Creta. Nos Jogos de Suzanne não há um monstro, mas uma Capital sedenta pelo sangue e pelo entretenimento de ver jovens provenientes dos doze distritos (os tributos), que devem lutar até a morte entre si numa arena perigosa por si só - com seres geneticamente modificados para serem armas de guerra (os bestantes), plantas venenosas e imprevistos climáticos. O vencedor recebe várias honrarias, fama e uma vida confortável para ele e sua família - ou não.
Ao longo da trilogia acompanhamos a história de Katniss Everdeen, uma jovem de 16 anos do Distrito Doze - o mais pobre. Katniss caça para manter sua mãe e sua irmã mais nova, Primrose; seu pai morreu em um acidente nas minas de carvão do distrito anos antes, o que mergulhou sua mãe numa depressão profunda, tornando-a inválida.
Seu melhor amigo é Gale Hawthorne, que perdeu o pai no mesmo acidente do pai de Katniss; ele também é um caçador hábil e ajuda a sustentar sua mãe e irmãos com o dinheiro da venda da caça no mercado negro - já que caçar nas florestas "da capital" era um crime digno de punição severa.
Apesar dos tempos nada agradáveis, a protagonista se sentia mais ou menos segura... Até que chega a Colheita - quando são anunciados os participantes dos Jogos. Como uma forma de proteger a irmã, que deveria se inscrever pela primeira vez naquele ano (a inscrição era compulsória para todos entre 12 e 18 anos), Katniss se inscreveu várias vezes - a maldade do sistema está em que, quem se inscreve mais vezes recebe alimento extra.
O plano acaba dando errado e Prim é escolhida para os Jogos, e Katniss se oferece para ir em seu lugar. Tornando-a famosa perante a Capital - afinal quem seria louco de se oferecer para ir no lugar de alguém?
Assim acabamos acompanhando Katniss, que tem sua vida transformada pelos Jogos: seu amor pela irmã, a evolução do seu relacionamento com a mãe (achei bem legal que ela aprende a ser compreensiva com ela), os conflitos com Gale e Peeta - que se torna seu parceiro nos jogos.
Achei Katniss uma personagem bem construída, ela não é a heroína perfeita, tem medo, quer fugir, não aprecia a ideia de se enfiar numa revolução e lutar... quer salvar a própria pele; nem sempre consegue perdoar. Pode ser que ela se culpe demais por coisas que estão fora do alcance dela e seja um pouco indolente (gostei quando Gale dá uma bronca nela falando que a revolução era uma possibilidade de esperança para os moradores dos distritos e não uma chance de morrer apenas); mas também é uma pessoa capaz de sentir a dor alheia, durona quando precisa e capaz de manter o foco.
A autora não foca no romance Katniss - Peeta - Gale e mostra a evolução de cada uma das personagens de maneira natural, o encerramento do relacionamento da protagonista e seus pretendentes é natural e não é destaque na história - que se foca na ação, na rebelião e na luta contra Snow (o presidente maléfico de Panem).
Confesso que o final me deixou deprê, mais pelos "nunca mais" que pelas mortes em si... É um final solitário, diria.

Bem, a trilogia traz a discussão alguns temas:

  1. Divisão da sociedade em classes e seus reflexos - talvez isso fique muito claro na relação Capital-Distritos, mas quando vemos a equipe de preparação de Katniss (responsável por deixá-la bonita para aparições em público) notamos o mesmo. Eles não têm permissão para participar de qualquer evento da capital e são, de certa forma, a margem de uma sociedade formada por pessoas ricas e voltadas para o prazer.
  2. Reflexos da guerra - uma coisa que gostei na autora é que ela não coloca um cenário perfeito onde jovens matam uns aos outros e saem psicologicamente ilesos. Haymitch (o mentor de Katniss e Peeta e que venceu outra edição dos jogos) é um alcoólatra desbocado, que só tem a fonte de seus problemas melhor explicada no último livro. Finnick (o vencedor do Distrito 4) é apaixonado por uma garota que enlouqueceu após os jogos e foi impedido de ficar com ela pela Capital... Não há vencedores felizes e ilesos, mas sim pessoas cheias de traumas e dores que tiveram a sorte (ou azar) de sair vivos da arena.
  3. A política do pão e circo - "Panem et circenses" é uma frase latina para se referir a essa política, onde o governo provê comida e divertimento para a população em troca de exercer um poder ilimitado. Não é a toa que a capital do país é Panem... Em "A Esperança" as personagens chegam a discutir que a Capital caiu por não prover mais pão (alimento) e circo (o divertimento através do Jogos, inclusive) aos moradores.
  4. A cultura televisiva - tudo vira assunto para televisão nesse futuro: os jogos, a rebelião, a guerra. Tanto que, no fundo, boa parte do conflito Rebeldes X Capital está ligada ao poder da informação, construção de ícones (como o Tordo - Katniss) e manipulação das massas.

Ou seja, se pensarmos bem, já vivemos nossos jogos hoje...

PS: Como não tinha visto os filmes, não sabia da trilha sonora. Mas a música da Lorde, Yellow Flicker é realmente perfeita!

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