O Melhor Tempo é o Presente - Nadine Gordimer
O Melhor Tempo é o Presente
Peguei esse livro de maneira aleatória na Universidade, vi que é de uma autora sulafricana e resolvi encarar o desafio de lê-lo (nunca li nada de autores africanos). Demorei meeeeses na tarefa, porque não tinha muito tempo para ler com as coisas da faculdade para fazer; além disso o livro é grande e pesado para me acompanhar em todos os lugares.
Bem, a história é simples e complexa ao mesmo tempo. O cenário é a África do Sul pós-apartheid, mas o tempo todo são evocados fatos do período anterior; acompanhamos um casal, Jabuline Gumede e Steve Reed, ele branco e ela negra, que se conheceram na luta armada contra o apartheid, se apaixonaram e viveram um tempo na clandestinidade até que o relacionamento deles pudesse existir legalmente na África.
A autora não mantem o foco sobre a vida e o romantismo do casal em si, mas sim os acompanha ao longo de vários anos em seus problemas e felicidades particulares; sem deixar de nos contar o que se passou (e passa) na África dos dias atuais - a história se encerra, no meio de uma epifania, no período próximo a Copa da África do Sul (2010).
Claro que também há a família e amigos da família, entre os quais se destacam os companheiros da Luta, os "golfinhos" (apelido dado a um grupo de homossexuais que moram no mesmo bairro que as personagens principais) e, presença marcante ainda que ausente na maioria do livro, o pai de Jabu, Elias Gumede.
O pai de Jabu é diretor de uma escola para meninos e presbítero da igreja em torno da qual se organiza o bairro (antigo bantustão) onde Jabu cresceu. Tendo muita predileção pela garota, quando ela terminou os estudos básicos, a enviou a Suazilândia para cursar uma faculdade. Ele é o mentor e a pessoa mais íntima da personagem, sua influência e ascensão são maiores mesmo que as de Steve - não que ela seja uma marionete dele, mas ele é o "porto seguro" ao qual ela recorre quando há problemas e a história deixa claro que ela se sente grata por ter estudado devido a influência dele.
Acho interessante a questão da passagem do tempo no livro, como as questões da vida de Jabu e Steve se alteram. Como com o passar do tempo eles percebem que o mundo não é tão "preto no branco" quanto eles sonharam antes...
Vem os filhos, as preocupações com onde morar, onde eles vão estudar... Uma escola particular para os filhos de ex-combatentes, não seria um privilégio? Morar no subúrbio, onde moravam antes as elites da cidade? Procurar um emprego para conseguir segurança financeira, não seria se tornar um burguês?
São essas as perguntas levantadas pouco a pouco pelo casal e seus amigos nesse mundo pós-apartheid, onde vão vendo aqueles que se juntaram na Luta ceder à busca por dinheiro e poder, se tornando tão opressores quanto aqueles que combatiam. Onde percebem que o fim de um regime opressor não significava tanto se as reformas não prosseguissem, se as riquezas do país tão próspero em que viviam não fossem acessíveis a todos. O fim do apartheid era apenas o começo.
Gostei muito desse livro, com uma narrativa em tom de memórias - a sensação que tive enquanto estava lendo é a de que eu estava dentro da cena, sentindo raiva das injustiças vistas, me curvando à dor e incertezas das personagens, apaixonante. A autora não tenta impor seus ponto de vista sobre os fatos, consegue ser bem imparcial e nos apresentar vários pontos de vista sobre uma mesma questão, algo que nem todos autores conseguem - eu, por exemplo, detesto Jorge Amado por isso; li Capitães de Areia e fiquei com a impressão de que ele escreveu tudo aquilo para "provar" que menores delinquentes não sabem o que estão fazendo ou são meras vítimas do sistema.
Apaixonei-me pelas personagens, Jabu é bela e inteligente, uma mulher independente, sábia e culta... Se tornou uma das minhas favoritas. Steve tem seus defeitos (ele faz algumas coisas na história que dão raiva) mas é interessante; os golfinhos são simpáticos, uma família praticamente, e senti falta de outra personagem usada para discutir a questão homossexual, o irmão de Steve - em certo ponto da narrativa ele "desaparece".
Bem... Devolver o livro à biblioteca me deu a sensação de perder um amigo querido, é como se não fosse mais ver a bela e inteligente Jabu - mas espero um dia ainda comprar esse livro e poder ler outras obras da autora.
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