Listas: distopias


Nem sempre assisto vídeos no YouTube (minha internet não é das melhores e tenho pouca paciência) mas quando começo o problema é terminar. Esses dias estava vendo um vídeo que relacionava listas de distopias no cinema... Então pensei "nunca escrevi listas no meu blog", então inspirada nisso vou começar com uma lista de distopias, claro! kkkk
Tinha uma época que gostava de ler distopias, pois normalmente o escritor quer nos passar algo sobre nossa sociedade e os rumos que estamos tomando quando escreve esse tipo de obra; também pode estar simplesmente mostrando que aquilo que apregoamos como ideal (uma sociedade igualitária, por exemplo) não é tão ideal assim.
Coloquei na lista quatro livros e três filmes que já vi que abordam o tema de maneira interessante. Claro que estou deixando de fora distopias bem legais, como 1984 (George Orwell) e Laranja Mecânica (Anthony Burgess) que nunca li - apesar de conhecer a proposta.

1) Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)
Creio que essa é a distopia mais legal que já li, ele não é grande - essa paixão por livros imensos é algo moderno rs. A edição que li tinha uma introdução feita pelo próprio autor, onde avalia sua obra após alguns anos da publicação original; ele mesmo observa que devido a falta de maturidade acabou deixando alguns "furos" que se pudesse corrigiria, mas como isso retiraria a originalidade da obra preferiu mantê-los lá. Talvez (talvez!) se ele escrevesse um livro mais extenso esse furos não estariam lá, mas também é preciso observar que aqui o autor não se perde em explicações sobre como a Terra chegou ao ponto que ele está narrando. Simplesmente chegou, isso deve bastar ao leitor.
Huxley nos apresenta a uma sociedade bem diferente da nossa, onde as crianças são produzidas pelo Estado em úteros artificiais. Durante o processo de "produção", os bebês já são encaminhados para suas diferentes funções que estão relacionadas às classes nas quais a sociedade está dividida - as classes vão dos Alfa aos Epsílon, sendo que os únicos "não alterados" são os Alfa que irão desempenhar funções de comando na sociedade. O Estado aqui não apenas "gera" seus membros como também os educa, sempre visando as funções a serem desempenhadas. 
Os valores e princípios também são bem diferentes dos nossos, pois aqui não existem mais "família" e "amor", esses são termos antiquados; as mulheres têm seu útero retirado ou então tomam doses de anticoncepcionais todos os dias para evitar filhos (pois é vergonhoso ter filhos). Não há qualquer laço entre as pessoas e todos vivem em busca do prazer, tendo para ajudá-las uma droga: a soma.
O livro fala muito sobre o preço que teria uma sociedade voltada unicamente para o prazer, sem qualquer conflito ou desordem e que teríamos que abrir mão de certa dose de humanidade para conseguir esse cenário "tão tranquilo". É interessante como ele relaciona ao seu cenário caótico muitos valores que estão sendo deixados de lado atualmente, como fidelidade, casamento, família.
Para mostrar isso o autor utiliza a personagem Bernard Marx (referência a Bernard Shaw e Karl Marx), que é um Alfa Mais insatisfeito com sua vida e apaixonado por uma colega; e, principalmente, o Selvagem (John) que tem um padrão moral bem diferente, baseado no recato, respeito, trabalho e pureza - um dos "furos" que o autor aponto é que John recita Shakespeare de cor, o título do livro provem de uma frase do dramaturgo inglês dita pelo Selvagem.

2) Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
A sociedade alterada aqui tem uma marca bem característica: a proibição de ler. Após um período de colapso, foi determinado que não deveria haver mais leitura e os livros foram totalmente proibidos sendo que toda a informação é transmitida através de aparelhos que lembram os televisores (apesar de não terem esse nome).
Essa é uma sociedade que preza pela velocidade e pelo efêmero na busca pelo prazer; não há mais memória e nem lembrança e as pessoas imaginam que o mundo sempre foi estático, tal como é no momento da narrativa - justamente um consequência de não haver mais a transmissão de conhecimento de uma geração a outra através dos livros.
Nesse meio encontramos Guy Montagne, que é um bombeiro. Ao contrário de hoje, ele não apaga incêndios e sim os provoca para queimar livros (o título do livro é uma referência a temperatura ideal para se queimar livros). Possuir um exemplar em casa é crime e cabe aos bombeiros localizar as obras, queimá-las e prender os responsáveis.
Guy conhece então Clarice McClellan, uma garota que o leva a questionar seu padrão de vida e mesmo seu casamento - ele é casado, mas não se lembra sequer como conheceu sua esposa e mantem uma relação fria. A partir desse momento a vida do bombeiro muda radicalmente.
Acho interessante que a discussão aqui é mais uma vez a busca pela felicidade; enquanto em Admirável Mundo Novo vemos uma sociedade que cultua o prazer, aqui temos uma que usa o imediatismo como ferramenta para alcançar seus objetivos: empurrar "para debaixo do tapete" tudo que nos causa dor e tristeza.
Ia esquecendo... Tem filme, é de 1966 e a direção é de François Truffaut.
Cartaz do filme de 1966

3) Jogos Vorazes (Suzanne Collins)
Quem disse que um livro para adolescentes não pode ter sua profundidade? Deixando o preconceito de lado, li esse livro por indicação de uma amiga (que também não é adolescente) mas ainda não li a trilogia toda; mas o primeiro livro já me cativou o suficiente! rs
Claro que, como não li a trilogia toda, minha análise tem vários furos; mas já dá para entender porque ela é tão interessante - especialmente se comparado com a proposta de outras séries adolescentes.
Suzanne nos apresenta uma sociedade pós apocalíptica onde não existem mais os Estados Unidos (se isso é bom ou ruim, é outra discussão kkk). No seu lugar se ergue Panem, onde há uma Capital cercada por 13 distritos que a servem; quando esses distritos tentam se rebelar há uma guerra que elimina o 13° distrito (sei, sei... essa eliminação é fake, já me contaram) e a capital pune os distritos promovendo anualmente os Jogos Vorazes - lembrou do mito do Minotauro?
O que seriam os Jogos? Todos os anos a capital escolhe dois "tributos" (um garoto e uma garota) de cada distrito, que devem se digladiar até a morte, o sobrevivente e sua família recebem várias "vantagens". Tudo televisionado.
A "sacada de mestre" da capital é: o tributo é sorteado e você pode se candidatar mais de uma vez (a partir de certa idade, você é obrigado a se candidatar pelo menos uma vez); mas quem se candidataria em algo assim? Ora, quem deposita mais um cupom tem direito a dose extra de comida... Percebeu?
Gostei do livro porque traz várias discussões: a sociedade do consumo, do prazer (mais uma vez), os realitys (sociedade do espetáculo, independentemente que espetáculo)... O "dividir para conquistar" pregado pela Capital, que isola os distritos entre si e fomenta rivalidades; a questão da desigualdade social.
Aliás nesse ponto ela usa várias perspectivas para falar disso: a Capital é rica, os Distritos pobres; entre os Distritos alguns são mais ricos e outros pobres (como o 12°, que é de onde vem a heroína, Katniss Everdeen); dentro de cada distrito há pessoas mais ricas e mais pobres.
O mundo de Suzanne é bem palpável (no fundo, caminhamos para algo muito parecido) e sua história é bem profunda e achei bem elaborada - pelo menos o que li. No mundo atual não vemos uma Panem (EUA, UE) que domina com mãos de ferro o mundo? Não vivemos numa sociedade onde se preza pelo espetáculo (O pão e circo)?
Assim como toda série adolescente que se preze, tem filme! rs

4) Cidade da Penumbra (Lolita Pille)


Já fiz uma resenha há muito tempo desse livro...
Ele nos coloca num futuro violento, sem limites ou padrões, onde a sociedade é baseada no consumo e hedonismo como forma de encontrar a felicidade - mas não a encontra.
O título vem do fato que houve um desastre ambiental: a certo ponto a poluição se torna tão incontrolável que esconde o sol, tornando a Terra escura. Então as grandes corporações criam a  cidade de Clair Monde, onde não há regras ou padrões e tudo é uma eterna busca pelo prazer; todos são obrigados a se "confessar" para um aparelho que o Governo usa para saber se as pessoas estão satisfeitas e detectar suicidas em potencial - o número de suicidas aumenta tanto que há uma divisão policial apenas para isso, onde trabalha a personagem principal, Sid Paradyne.
A sociedade é bem evoluída em termos de tecnologia, por exemplo a técnica cirúrgica é perfeita permitindo a "juventude etern" (mais um passo em busca da felicidade) e o belo é extremamente valorizado. Mas como se espera de um mundo controlado por corporações, não há mais ética (crianças são vendidas pelos pais para teste em experimentos científicos), a violência é incontrolável e quando você perde o poder de compra é expulso da cidade.
A chave aqui é uma crítica ao consumismo e hedonismo, numa sociedade onde o prazer e o consumo estão acima de tudo, principalmente de outros seres humanos. Os frutos dessa sociedade são bem conhecidos: pessoas vazias e cada vez mais infelizes e incompletas em sua busca por felicidade - já viu algo parecido por aí?

Agora vamos aos filmes...

5) Aeon Flux (2005)
Faz muito tempo que assisti esse filme, lembro que foi numa noite em que fiquei estudando até tarde para o vestibular e queria ver algo na TV. Então esse filme estava passando no SBT (kkk, mau sinal), no início achei bobinho, mas ele não é todo mal e acabei achando legal a "brincadeira" sobre o futuro possível - mas a história seria melhor se houvesse um trabalho melhor sobre a proposta.
Os tradicionais visuais "nada a ver" de filmes futuristas kkk

Nele vemos a Terra num futuro bem distante, onde grande parte da humanidade foi extinta por um vírus. Os sobreviventes vivem isolados em cidades independentes e têm uma forma de governo e organização bem diferente; o filme foca bastante no fato que a evolução tecnológica (especialmente biotecnologia) foi bastante elevada com relação a atualidade.
Acontece que dentro dessa sociedade há um grupo de rebeldes, que desejam eliminar o governo tirânico que se extende por décadas em Bregna - uma das cidades sobreviventes. Nessa sociedade altamente desenvolvida, o poder é exercido por cientistas e Aeon recebe a missão de eliminar o presidente e líder desses cientistas.
Durante a narrativa, ela acaba descobrindo vários segredos sobre essa sociedade tão estranha e do porque que o planeta chegou nesse nível. Acaba descobrindo que a cura do vírus que infectou a população levou os humanos à infertilidade, para evitar a extinção passaram a clonar as pessoas, as grávidas eram meras barrigas de aluguel; o próprio presidente já havia sido clonado várias vezes e sempre educava seu sucessor desde que criança para que ele pudesse continuar buscando a cura para a infertilidade - aqui a clonagem também "transfere" a memória do morto para o novo corpo.
O que se pode extrair de útil? Bem, além da diversão (rs) é interessante pensar nas possibilidades da ciência e também na ideia da imortalidade - no final da história descobrimos que a irmão do presidente havia observado que a cura para a infertilidade havia se operado sozinha (naturalmente) o que dispensaria os clones, mas ele elimina e persegue as grávidas de verdade pois deseja "viver para sempre".

6) Elysium (2013)
Fui assistir esse filme com meus amigos, para comemorar o fim de mais um período na faculdade.
Mais uma vez aqui há uma sociedade futurista mas dessa vez os benefícios da tecnologia avançada e boa vida são para poucos e não devido uma praga ou catástrofe natural, mas sim devido nossas burradas atuais com relação ao planeta. O que vemos no período retratado pelo filme é a Terra transformada num "planeta favela" (esse é o nome de um livro do autor Mike Davis, que discute justamente o aumento de favelas no mundo todo); aqueles que possuem melhores condições de vida abandonam o planeta decadente e partem para Elysium, uma estação espacial que simula a Terra como conhecemos, porém com clima controlado e sem presença de pobres - um condomínio fechado espacial.
Enquanto milionários desfrutam suas belas mansões, na Terra os pobres desempenham as funções mais perigosas - trabalhar com produtos radioativos sem proteção alguma, por exemplo.
A trama se desenrola com Max (personagem do Matt Damon) tentando entrar em Elysium para tratar a doença fatal que adquire devido sua exposição a uma alta dose de radiação - na estação há máquinas capazes de curar toda doença, inclusive a velhice. Para isso ele é ajudado por Spider (Wagner Moura) que promete ajudá-lo contanto que realize um serviço para ele - é a partir desse serviço que eles percebem que podem fazer muito mais que obter benefícios pessoais entrando na nave.
A analogia é clara: Elysium nada mais é que um símbolo dos países desenvolvidos, que mantêm seu alto padrão às custas de trabalho escravo e subumano em outras regiões do globo (como a China); o futuro retratado é esse modelo levado às condições extremas - o que pode ser um pouco perturbador.

7) O Doador de Memórias (2014)


Uma amiga minha da faculdade tinha me aconselhado a ver esse filme (e me dado todos spoilers possíveis), mas fiquei enrolando e só fui ver com meu namorado há pouco tempo - ele me ajuda a superar minha preguiça de ir atrás dos filmes rs.
O Doador é baseado numa série de livros, The Giver, da autora Lois Lowry. Buscando resenhas de livros (sou viciada) descobri que ela escreveu seus livros pegando sempre a ideia de um mundo com uma sociedade ideal porém cheia de mistérios e coisas proibidas.
Encontramos em Doador uma cidade que me lembrou muito Admirável Mundo Novo; o governo produz e tutela as crianças também, entregando-as a famílias depois de um tempo. Nessa sociedade cada um também tem uma função que é revelada quando a pessoa é jovem, então será treinada para sua função.
Nessa sociedade de iguais, que busca eliminar todas as mazelas do nosso mundo - como preconceito e guerras - não há sentimentos de verdade, cores, alegrias... As pessoas tomam uma droga que impede que vejam cores ou que tenham sentimentos de fato. Também não há memória coletiva.
Mas uma sociedade sem memória estaria sujeita a cometer os erros do passado, mas memórias também trazem dor e sofrimento, como proceder? A solução é a figura do doador. Ele recebe todas as memórias da sociedade humana, tem direito a alguns privilégios e a tarefa é desempenhada por um único indivíduo, capaz de sentir, ver cores e apto para aconselhar o Governo em decisões difíceis.
O protagonista descobre que foi escolhido para ser o próximo a possuir as memórias e começa um duro treinamento - tendo contato com a alegria, a neve, o amor, mas também com a guerra, intolerância e preconceito. Isso muda sua visão da sociedade tão perfeita, tornando-o um risco para essa sociedade.
Esse filme pega, assim como outras distopias, quão perigosa poderia ser nossa sociedade ideal e o quanto nossos erros (e acertos) nos tornam humanos de fato. Uma sociedade de iguais não significa uma sociedade justa e perfeita, significa apenas uma sociedade de iguais.

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