#Opinião 01: Para que serve a ficção cristã?



Quando falei de O Leste Mais Distante, mencionei que precisava falar sobre ficção cristã… Até comentei com uma amiga sobre a necessidade que eu sentia de comentar sobre a qualidade ou não de trabalhos produzidos sob essa etiqueta.

Mas para começar: o que é ficção cristã? Para entender minha resposta, antes você precisa saber o que é cosmovisão, segundo o Dicionário Michaelis se trata de


Sistema pessoal de ideias e sentimentos acerca do Universo, concepção do mundo. (Dicionário Michaelis Online)


Muito crente não sabe bem o que é uma cosmovisão e não sabe que o evangelho é mais do que mera religião e sim cosmovisão - o cristianismo afeta como me relaciono com o próximo, com a criação, com as artes, minhas tristezas, alegrias, dúvidas e certezas.

Eu poderia fazer um textão falando sobre como ser cristã afeta meu trabalho e relacionamentos, como afetou minha faculdade no momento em que fui escolher o curso; porém vou focar na relação com a arte.

Para quem gosta de discussões filosóficas (confesso que me falta profundidade para isso) têm várias obras que falam sobre arte e fé - na minha lista de leituras está A Arte Não Precisa de Justificativa (sim, lerei Rookmaker).



Agora que sabemos o que é cosmovisão, podemos dizer que a ficção cristã se propõe a ser um estilo onde o autor apresenta uma obra ficcional permeada por valores e princípios cristãos - ou seja, um oásis a prova de pornô hot que tem inundado as prateleiras das livrarias sob capas fofas e imagens de damas e cavalheiros respeitáveis.

Apesar de ter um apelo recente no mercado, não é de hoje que existem obras nesse nicho. Podemos citar O Peregrino (John Bunyan) e Pés como os da corça nos lugares altos (Hannah Hurnard) como exemplos de ficção cristã; Lewis escreveu ficção cristã, seja com As Crônicas de Nárnia, a Trilogia Cósmica ou Até que tenhamos rostos.

Recentemente está rolando uma nova onda de ficções cristãs, sendo que houve certo frisson recentemente após a Globo anunciar a adaptação de um romance dessa categoria - Círculos Não São Infinitos (Vitória Souza).

Talvez esteja se perguntando: e é uma coisa boa ter livros de ficção com temática cristã?

Depende (resposta que meu marido daria com certeza rs).

Muitos autores se propõem a escrever como forma de evangelismo, e é claro que é possível alcançar pessoas que não conhecem a Jesus de várias formas e a literatura é uma delas. Porém o perfil das obras que possuem essa pegada é extremamente confessional, inclusive o autor de O Leste Mais Distante (Paulo de Paula) chega a mencionar o receio de colocar alguma imagem teologicamente inadequada dentro de sua obra… Porém é importante ter uma coisa em mente: a obra é uma FICÇÃO, não um tratado de teologia.

Aí eu vejo um problema que considero sério: quando produzimos uma arte com objetivo super confessional, aquilo recebe um selo “gospel” e ao invés de atingir aqueles que não conhecem a Cristo, fica presa dentro da bolha evangélica - eu não conheço alguém que não seja cristão e escute gospel, por exemplo.

Aí, como já vi uma pessoa comentando, fico com Tolkien. Uma das críticas dele a obra de Lewis era o teor alegórico da obra - quem leu ou mesmo assistiu As Crônicas de Nárnia pega a referência Aslam/Jesus… Um leão que se sacrifica no lugar de um traidor, mas que ressuscita e abole para sempre o ritual de sacrifício (o Leão da Tribo de Judá… Crucificação… Véu do templo rasgado… Ressurreição).

A alegoria, se não bem empregada considera o leitor burro, incapaz de garimpar aquilo que leu para entender o que está ali em oculto. Quer um exemplo? Tolkien trouxe em O Senhor dos Aneis a apresentação do tríplice ofício de Cristo através de personagens diferentes.


Temos Aragorn como um rei aguardado, capaz inclusive de realizar curas;


Então Gandalf disse: - Não fiquemos parados aqui na porta, pois o tempo urge. Vamos entrar! Pois só com a chegada de Aragorn haverá esperança para os enfermos que jazem na Casa. Pois assim falou Ioreth, mulher sábia de Gondor: As mãos do rei são as mãos de um curador, e dessa forma o verdadeiro rei será conhecido. (O Retorno do Rei)


Frodo é o sacrifício/sacerdote, ele sabe que a missão é suicida (ele não tem expectativa de voltar de Mordor) mesmo assim ele vai;


Um desejo incontrolável de descansar e permanecer ao lado de Bilbo em Valfenda encheu-lhe o coração. Finalmente, com um esforço, falou, e ficou surpreso ao ouvir as próprias palavras, como se alguma outra vontade estivesse usando sua pequena voz. “Levarei o Anel” – disse ele. – “Embora não conheça o caminho.” (A Sociedade do Anel)


Gandalf é o profeta, ele está ali para suscitar as chamas dos corações das pessoas, admoestar os outros para agir. Acho que não há imagem melhor que a sua luta contra o Balrog.

Cena de A Sociedade do Anel (créditos na imagem)

Entendeu as referências? Nada óbvio, nada explícito… Quantos não cristãos leram Tolkien? 

Quantos se irritaram porque descobriram que gostavam de uma obra conservadora? (sim, já vi muita gente criticando e falando que algumas coisas aconteciam ali porque Tolkien era cristão).

Será que nessa leva de literatura gospel conseguiremos produzir algo tão refinado e duradouro?

Mas e aí, precisamos da ficção cristã? Creio que sim… É um caminho para um cristão de divertir (se for bem escrito, fique bem dito), é interessante para quem não tem tanta maturidade na fé ler uma ficção que trará alguns princípios da fé (aqui a alegoria cai bem) e quem não tem ainda aquele super hábito de leitura é uma porta aberta - não corre o risco de você cair na cilada do softporn ou de encontrar alguma coisa que gere o conflito de “estou torcendo pelo lado certo?”.

Contudo confesso ser cética sobre o potencial evangelístico… Acaba entrando na seara da música gospel, camisetas de igreja e afins. O incrédulo usa no máximo para fazer um meme.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Transformação - Nora Roberts

O Último Desejo - Andrej Sapkowski

Como ter o coração de Maria no mundo de Marta - Joanna Weaver