Em Busca de Watership Down - Richard Adams
Eu costumo começar falando como descobri o livro, né?! Mas dessa vez vou fazer de uma forma diferente, falando dos protagonistas: coelhos.
Bem, meus pets são dois coelhinhos e tive um outro que já morreu. Basicamente eu estava em um momento difícil durante a pandemia (quem não?!) e desejava ter um cachorrinho, mas eu sempre achei injusto ter cachorro em apartamento porque se nós nos sentimos engaiolados, dirá um serzinho que nasceu pra correr por aí?!
Meu marido não gosta de gatos e somos alérgicos (não que isso seja um problema para mim hehehe) mas surgiu a ideia do coelho… Logo de cara rejeitei porque vi que dava muito trabalho e me senti insegura; mas no dia do meu aniversário ele surgiu em casa com uma caixinha com um filhote dentro - a coisa mais linda que já.
A experiência de viver com eles trouxe vários aprendizados: me estimulou a comer menos carne, a não usar produtos testados em animais, comer mais salada, ser mais silenciosa e não levantar muito o pé em hipótese alguma - sério, eles amam andar beeeeem junto e ocasionalmente entram no seu caminho, de preferência embaixo do seu pé.
Quando estava bem nesse clima de coelhinho novo em casa, estreou na Netflix a série animada “Em Busca de Watership Down” e fiquei sabendo que era um livro; mas que não era lá muito fácil de achar aqui no Brasil.
De fato Richard Adams tem vários livros, pelo que pesquisei vários com essa temática de animais, de cuidado com a natureza e de como o homem lida com o meio ambiente. Porém só foram publicados em língua portuguesa esse e “Plague Dogs” - sendo que você não acha mais pra comprar esse último, porque a última edição é antiga e Watership Down teve edições recentes.
Inclusive fui pesquisar sobre a obra e descobri que ele foi a ficção mais vendida da Inglaterra até Harry Potter… Então para eles é um clássico e para nós algo bem desconhecido. Achei poucos vídeos em português sobre a obra e sobre o próprio Richard Adams. Segundo meu marido é para me estimular no aprendizado e prática de língua inglesa.
Vamos à história… Dá para dividir a história em duas partes, na primeira seria a jornada em si para Watership Down, a segunda são os desafios que eles enfrentam lá. O autor dividiu em quatro partes (A Jornada, Em Watership Down, Efrafa, Avelã-rah).
Antes de contar a história em si é interessante fazer alguns adendos… Como um bom autor, Adams nos apresenta gradualmente a sociedade dos coelhos, mostrando seus costumes, língua e religião - este último aspecto é bem suavizado nas adaptações da obra.
Outro ponto importante são as descrições da natureza, nomes de plantas e animais, Richard Adams é um naturalista sendo que na introdução o mesmo menciona que parte das descrições e narrativas surgem de observações do próprio durante passeios ao campo com o pai.
Quando era menino, eu frequentemente andava pela região das colinas com meu pai, que me falava sobre as aves e as flores do campo; e assim começou a paixão de uma vida inteira pela história natural. (p.10)
No início vemos nossos heróis, Avelã e Quinto, pastando tranquilamente com outros companheiros de toca em busca de Prímulas. Os dois são irmãos e aqui já vamos conhecendo a sociedade nas tocas, onde há um chefe coelho e uma Owsla que é uma guarda que protege/atende esse chefe - a sociedade é bem estratificada e quem fica embaixo é hostilizado.
Quinto tem visões e pressentimentos o tempo todo, sendo que prevê uma tragédia ainda indefinida sobre a toca; ele e seu irmão aconselham o chefe coelho que todos devem partir imediatamente, porém são ignorados pois acham que estão absolutamente seguros ali - o leitor sabe que não porque é dito que uma placa vista pelos coelhos dizia que haveria um empreendimento imobiliário ali.
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| "Ah, Avelã, olhe! O campo! Está coberto de sangue" (Cena da animação de 1978) |
Avelã escuta o irmão e decidem partir dali, sendo acompanhados por um grupo pequeno de machos. A partir daí vamos vendo a jornada deles através de campos, rodovias, florestas e fazendas até chegar a colina que Quinto viu em suas profecias.
Enquanto acompanhamos essa aventura (uma das adaptações se chama “A Grande Aventura”) vamos sabendo mais sobre a cultura e religião dos coelhos, através das histórias contadas por eles. Temos um deus, Frith, e um herói El-ahrairah (o Príncipe dos Mil Inimigos), que seria um coelho primordial. Através dessas histórias sabemos um pouco sobre a relação dos coelhos com outros animais, com a morte (o Coelho Negro de Inlé) e como eles, sendo presas, enxergam o mundo a sua volta.
Depois de passar vários perrengues com predadores, com uma toca bem sinistra ocupada por coelhos ateus que são alimentados por um fazendeiro que os caça para obter carne e peles, eles chegam à colina.
Mas uma vez estabelecidos lá, chegamos a um problema que um leitor atento já percebeu: só há machos. Assim passamos a acompanhar a busca por fêmeas, o que os leva a uma fazenda vizinha e também a Efrafa.
Em Efrafa eles se deparam com uma super toca, governada de forma totalitária pelo General Vulnerária - um coelho que foi criado por humanos, fugiu e virou uma figura de comando na toca.
Os coelhos desejam fêmeas para si, a toca está lotada de fêmeas que não se reproduzem mais devido ao estresse da toca cheia mas mesmo assim Vulnerária não libera as fêmeas para partirem, persegue quem tem essa ideia e ainda por cima captura os emissários de Avelã - que escapam de lá usando alguns truques.
Os heróis conseguem retirar as fêmeas usando inteligência, coragem, amizades e a ajuda de outros animais (o amigo deles é uma gaivota de cabeça preta chamada Kehaar); sendo que ainda assim precisam lidar com a ameaça do General que está disposto a destruir a toca de Watership Down apenas para garantir seus domínios.
Richard Adams apresenta alguns temas aqui, o mais lembrado é sobre regimes totalitários devido principalmente a Efrafa com seu general. É importante lembrar que Richard Adams lutou na guerra, tendo baseado Avelã em seu comandante e Kehaar em um oficial estrangeiro que fez amizade com eles.
Mas ele também fala sobre modelo de liderança, pois como confrontados com a forma como Avelã-rah se destaca como líder do grupo; há amor, sacrifício e serviço nele, enquanto vemos que Vulnerária, Prímula e Threarah sendo líderes que gostam de ser servidos, que ocultam verdades dos liderados e amam gritar ordens.
Assim entramos em um tema que o autor alega não ter abordado de forma intencional, mas que entendedores entenderão: religião. Adams é cristão e acaba infundindo sua cosmovisão na obra, mesmo que não tenha a intenção de ser alegórico como Lewis; vejo nele mais de Tolkien.
Vemos isso na criação de mundo, nos exemplos positivos de liderança (Avelã e El-ahrairah), no valor dado a amizade, a garantir a unidade do grupo apesar das diferenças (temos Topete, um coelho extremamente forte, e Sulquinho que é frágil e tímido) e até referências mais diretas como a religião monoteísta; no sacrífico que El-ahrairah faz para salvar os seus: entregar-se ao Coelho Negro para que ele poupe sua toca.
Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Marcos 10:45)
Outro tema que é apresentado é a questão ambiental. Em vários momentos se discute como o homem interage, com ou sem intenção, de maneira nociva com o meio ambiente - seja destruindo a toca de onde os protagonistas fogem, caçando os coelhos, criando cães e gatos que são predadores. Nesse ponto lembrei de Os Animais do Bosque dos Vinténs e outras obras com um teor mais ambientalista.
O texto ficou grande né?! Mas é que a obra é bem grande mesmo… Vi resenha falando que o livro podia ser menor, mas é um livro sem barrigas. Se fosse hoje talvez tivesse virado uma duologia ou trilogia - não li a graphic novel, mas parece que eles enxugaram os textos de epígrafe e talvez as lendas, assim como a adaptação de 1978.
Pesquisando sobre o livro descobri que há muitas críticas vinculadas ao papel das fêmeas que só surgem na segunda parte, como seres que precisam de resgate e que só estão ali para se reproduzir. A mim não me incomoda, ainda mais que o livro apresenta uma história que Adams inventou para distrair as filhas… Acho que durante uma viagem de carro ou enquanto coloca as crianças na cama, ninguém pensa se a obra contribui para igualdade de gênero né?! Por isso ele criou um segundo volume com contos, chamado Tales from Watership Down.
Para encerrar, recomendo demais esse livro para quem gosta de meio ambiente, coelhos e quer ver algo que não subjugue a inteligência das crianças.



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