O leste mais distante (Paulo de Paula)

Foto de Alex Azabache no Pexels: https://www.pexels.com/pt-br/foto/tres-camelos-descansando-no-deserto-3264722/

No dia da Reforma Protestante (31 de outubro) vários autores de ficção cristã disponibilizam seus livros gratuitamente no Kindle, esse ano não esqueci e corri lá para ver o que havia (ou não) de legal. Depois quero falar um pouco sobre a produção cultural de cristãos ultimamente, mas vamos deixar para outra oportunidade.

O leste mais distante é uma obra de fantasia cristã, onde acompanhamos inicialmente a história de um povo (os filhos de Abel) que são escravos em uma nação opressora, tendo sido libertos de maneira surreal e chegando a uma terra prometida após um longo tempo de peregrinação no deserto - deu pra ver que sutileza não é o forte da obra, né?!

Eles estabelecem um reino lá, sendo que o libertador se casa com uma mulher do povo e eles têm um filho que é um jovem adulto no momento que acompanhamos a trama. É mostrado que eles possuem um poder ancestral, capaz de curas, comunicação a distância e outras habilidades que vão sendo mostradas.

O início mostra a dinâmica ali dentro de Abel-sitim, com seus comerciantes, relação com cidades vizinhas e um pouco da rotina do palácio - algo que senti falta, porque ele não consegue convencer a gente que a família real é tão próxima assim do povo.

Em certo momento somos apresentados aos problemas (sim, eles existem) daquele país: o miasma, emitido pelas forças inimigas, que induz uma série de problemas. Está vinculado à ação da inimiga de Abel-sitim, Gehenna, que havia liderado com o Rei no passado enquanto o povo peregrinava no deserto, mas se rebelou posteriormente. Seu maior desejo é destruir Abel-sitim e havia construído para si uma cidade subterrânea, Baalmeon, para onde arrasta desavisados os deixando sob seu poder.

Um destes acaba sendo Aquemi, um jovem morador de Abel-sitim que é influenciado pelo miasma e acaba indo para essa cidade onde, desmemoriado, passa a maior parte da trama.

Assim acompanhamos a vida de Aquemi, agora chamado simplesmente de Aki, nesta cidade estrangeira e a forma como pouco a pouco ele vai se tornando cada vez mais parte da cultura local.

O Príncipe vai resgatar o rapaz da cidade da perversidade, sendo que as consequências disso são sentidas por todos moradores daquelas cidades.

Bem, deu pra perceber que a história é super alegórica… Se o Tolkien criticava o Lewis por As Crônicas de Nárnia, aqui ele espumaria kkk.

Fica claro que Abel-sitim é Israel, que a família real é o Deus-trino e que o poder ancestral é nossa comunhão com Ele - no final da história todos os fiéis recebem esse mesmo poder para falarem livremente com o Rei, algo que até então somente o Príncipe e a Rainha podiam fazer.

O autor busca mostrar como é fácil para nós entrarmos nos moldes do mundo (para usar um bom crentês) e como não dá pra viver pela fé de nossos pais; além da camada óbvia sobre a obra redentora de Cristo.

Então vejo que a história em si não traz temas ruins, porém a forma como é contada para mim empobrece a trama. Há um tempo tenho me sentido incomodada pela bolha cultural gospel onde cristãos são incentivados a consumir apenas aquilo que leva um selo cristão na capa, independente da qualidade daquilo; não há mais incentivo a “julgai todas as coisas, retende o que é bom” (citando Paulo em 1 Tessalonicenses 5:21).

Tudo está tão às claras que é difícil que a produção cultural dessa forma alcance quem não conhece a Cristo - é fácil esquecer que aqueles que estão fora podem e devem ser alcançados através da arte/conhecimento produzidos por cristãos. Porém é difícil que isso ocorra se tudo que produzimos é sem espaço para a interpretação… Inclusive sendo essa uma crítica que já vi não cristãos fazendo sobre aquilo que um cristão produz: ausência de espaço para refletir, assimilar e interpretar. O autor deixa clara que essa é a intenção de sua obra já na Nota do Autor, transparecendo que havia o temor de existir espaço para interpretação diversa.

Outra questão que me incomodou: estrutura da história. O autor perde muito tempo apresentando Abel-sitim e sua estrutura e demora para inserir o protagonista; é difícil convencer o leitor que a família real é próxima do povo quando ela só interage com pessoas da guarda ou servos do palácio. Não é crível que eles se importam com Aquemi, porque eles mal interagem com a família dele… É dito que o poder ancestral permite que eles tenham contato/cuidado com todos filhos de Abel, mas é complicado fazer com que isso seja claro ao leitor - se você for cristão, vai pegar a alegoria e acreditar nisso, mas o fato não se sustenta só pela narrativa.

Também me incomodou o destino de Wes, um personagem que é o “amigo” de Aki em Baalmeon, não vou contar o que acontece com ele. Mas a construção do personagem não encaixa, as reações dele mediante as interações de Aki com a cidade, as resistências a certas situações que ele demonstra. Talvez fizesse sentido o destino se o narrador não fosse onisciente, mas os pensamentos dele estão ali expostos e mesmo assim ocorre uma surpresa com relação a ela.

Mas eu indicaria alguém para ler esse livro? Sim… A obra é divertida, não vamos ver a defesa de valores que vão contra a fé cristã e é ótimo para dar aquela descansada depois de uma leitura densa, sabe?!

Mas eu encaro como algo para o público adolescente, pessoas novas na fé, quem está procurando desenvolver o hábito de leitura. Se você já leu Alta Fantasia ou já tem o hábito de ler pode ficar incomodado ou desanimado para ler.




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