Os Pardais do Velho Mundo (Gabriela Fernandes)



Aqui acompanhamos o que ocorreu após o final de As Andorinhas de um Continente em Chamas… Basicamente o início da história conecta a narrativa dessa obra com a anterior, mostrando como ficou a relação da Kelaya e de Zion, como ele reagiu a fé dela e também as dúvidas e incertezas relacionadas ao fato de Tai ser seu irmão.

Posteriormente acompanhamos a história dos protagonistas em Efes. A ilha, de prima, parece um verdadeiro “paraíso artificial”, um lugar próspero, belo e desprovido de natureza - literalmente, pois as plantas são artificiais e não existem animais no local. Ao longo da história ficamos sabendo que não há exatamente um governo, mas que existe um sistema que permite a conexão entre todos moradores do local, o Aeternus (Eterno em latim), onde é possível trabalhar, consumir e se divertir sem sair de casa. A empresa que o controla, Nomam, acaba sendo quem de fato governa aquele lugar - e existe um mistério sobre o dono dessa empresa que, quando revelado, me deixou chocada rs.

Quem não está atento pode achar o lugar de fato um paraíso… Ali a protagonista pode comprar a comida que quiser, pode comprar aquilo que quiser e conhecer todo um maravilhoso mundo online. Parece tão familiar né?!

Lembra uma frase de O Manifesto do Partido Comunista, onde Karl Marx afirma que a liberdade que o capitalismo oferece é a de comprar; posso não ser comunista, mas convenhamos que errado ele não está.

Mas aos poucos os problemas vão aparecendo. Sabemos que as pessoas não se relacionam mais entre si, preferindo ter contato apenas pelo Aeternus; o que me lembrou um dos mundos pioneiros da obra de Asimov (Solaria), onde as pessoas chegam ao ponto de praticar engenharia genética para não precisarem mais ter contato com as outras nem para se reproduzir.

Abrindo um parênteses, é interessante como outras obras de ficção também apontam esse isolamento entre seres humanos e como essas dificuldades relacionais estão vinculadas a tecnologia - veja o filme Her, por exemplo, onde o protagonista desenvolve um relacionamento romântico com uma máquina, sendo confrontado por sua ex-mulher em dado momento.

Também ficamos sabendo que em Efes, se você não pode trabalhar não tem utilidade e não tem direito a morar lá, o que logo de cara já gera um desconforto em Kelaya pois vários refugiados são ex-usuários de droga, idosos e crianças sem uma perspectiva de serem úteis para essa sociedade. É óbvio o paralelo com nossa cultura utilitarista e que valoriza o gerar lucro e conquistas materiais.

Existem ainda outros problemas nesse paraíso, como prostituição, festas regadas a prazeres estranhos - se você está onde tudo é possível, você procurará cada vez mais coisas e sensações. Para quem quer ler outra obra que aponta isso com maestria, é Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) onde existe uma sociedade repartida em castas, onde todos prazeres estão disponíveis e mesmo assim paira um clima de insatisfação ali.

E é nesse cenário que Kelaya deseja divulgar o Logos… Parece impossível até que alguém queira ouvir sobre num cenário desse, pois é difícil em um contexto hedonista alguém querer ouvir sobre domínio próprio, sacrifício pessoal e outras palavras tão comuns ao cristianismo.

Contudo, mesmo diante de sérias provações, eles encontram novos e improváveis amigos… Uma igreja, ainda que não se reconheça como tal (na verdade, eles nem sabem o que é igreja).

As lições que ficaram? Bem, não há sistema humano que realmente vá alcançar aquilo que Deus deseja para a humanidade... Não caiam no discurso de que "o sistema X é mais cristão" "crente não pode aceitar o sistema Y". Queridos, nada que o homem pense ou faça sozinho pode atender ao padrão divino.

Seu valor está em Cristo e não em de onde você vem, o que você faz da vida ou outra coisa material. Zion vive o dilema de saber que, ainda que seja literalmente perfeito, ele é um bebê que seria descartado. Ele não consegue se desligar desse passado dele; por isso ele busca justiça própria o tempo todo e busca incessantemente a Terra, onde acredita que será valorizado.

Bem, isso é o que tenho pra falar sobre a obra... Agora é esperar até a autora concluir a trilogia - se inicia aqui uma longa espera.


O pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si, onde acolha os seus filhotes; eu, os teus altares, SENHOR dos Exércitos, Rei meu e Deus meu!

(Salmos 84:3)

Foto de Pixabay: https://www.pexels.com/pt-br/foto/passaro-marrom-e-branco-na-arvore-86591/


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