Eu, Robô - Isaac Asimov
Não é a primeira vez que falo de um livro do "Bom Doutor", aqui você encontra textos sobre a trilogia da Fundação (Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação) e Nemesis. Mas uma coisa que sempre me perguntava era o porquê de o futuro de Asimov não ter robôs... Nada mais lógico que o homem utilize máquinas para explorar o espaço e realizar tarefas cotidianas não? Então por que não há nenhum robô em Fundação ou Nemesis?
Procurando essas respostas cheguei a série dos robôs de Asimov, que inclue as obras "Eu, Robô", "Pedra no Céu", "As Cavernas de Aço", "O Sol Desvelado" - esses dois últimos mesclam a ficção científica com romance policial.
"Eu, Robô" é uma coletânea de 09 contos que são conectados por Susan Calvin, uma fria e inteligente psicologa roboticista. No livro um jovem jornalista resolve coletar alguns relatos da psicóloga, que defende a superioridade das máquinas diante de uma sociedade corrompida.
Em Robbie, o primeiro conto, temos a história de um robô que serve de babá para uma garotinha chamada Gloria. A menina é apaixonada pela máquina, para quem conta várias histórias, brinca e faz birra; mas a situação não deixa a mãe da menina satisfeita, ela vê com maus olhos sua filha pequena passar seus dias na companhia de uma máquina e planeja separar sua pequena do robô.
Lendo o conto me lembrei muito de A.I., quando a mãe abandona o robô porque seu filho legítimo forja a ideia que ele é perigoso. No final do conto a dra. Calvin afirma que os robôs foram proibidos na Terra entre 2003 e 2007, pois muitos os consideravam perigosos e que podiam substituir o homem como mão de obra.
Nos três contos seguintes, Andando em círculos, Razão, É preciso pegar o coelho, as personagens principais são os colegas de trabalho de Calvin, Gregory Powell e Michael Donovan. Os dois são responsáveis por realizar o teste de campo de novos modelos e por isso se deparam com situações inusitadas - como um robô bêbado, ou um religioso ou ainda um que beira a histeria.
É interessante que Asimov "brinca" com a ideia de máquinas se tornarem complexas ao ponto de se aproximarem de seres humanos, perdendo a noção da realidade ou ainda criando consciência de si mesma - e obviamente se perguntando de onde veio.
No conto Mentiroso! ele trás um robô interessado na mente humana e com uma misteriosa capacidade de ler mentes; ao contrário do esperado, Herbie (o robô) não se interessa por matemática e aprecia ler romances e tentar entender a maneira como a mente humana funciona. Em Um robozinho sumido encontramos de novo um mentiroso, mas dessa vez trata-se de um robô ressentido que deseja fugir e se vingar do homem que ajudava - aqui também a dra. Calvin mostra a importância das Três Leis da Robótica serem mantidas intocáveis.
Evasão! faz a conexão dos robôs com a expansão espacial, onde uma máquina desvenda o mistério das viagens pelo hiperespaço e leva dois homens (Powell e Donovan) a uma viagem. O conto mostra a ascensão das máquinas, que são uma forma de A.I. que não possuem uma interface como os robôs e se dedicam a solução de problemas - lembrei do Multivac, o super computador de "A última pergunta" (um conto do Asimov).
Os dois últimos contos, Evidência e O Conflito evitável, trazem Stephen Byerley. Ele é um promotor público brilhante, cotado para ser prefeito; mas seu rival Francis Quinn vê nele algo além de um homem brilhante, vê um robô positrônico.
Decidido a vencer o rival, pede a ajuda da empresa onde a dra. Susan trabalha e que é a única a produzir robôs positrônicos na Terra, a U.S. Robots and Mechanical Men, Inc. Contudo suas artimanhas não dão certo e a carreira política de Stephen decola e encontramos ele como o primeiro Coordenador Mundial no último conto, onde aponta as máquinas como a única forma da humanidade evitar sua destruição.
Em toda obra achei alguns pontos interessantes, como:
- O limite entre a racionalidade fria, que se espera de uma máquina, e a humanidade. A dra. Susan afirma que já foi acusada de ser um robô por ser uma pessoa naturalmente fria e dona de uma mente perspicaz; já o livro está recheado de robôs que agem como humanos, chegando mesmo a ter religião.
- Achei bem interessante a perspectiva de Asimov para o futuro... O primeiro conto se passa em 1998 e já vemos um robô humanoide dotado de emoções; o último conto se passa em 2052 e apresenta a Terra com um governo unificado, que já conquistou o Sistema Solar, de onde retira matéria prima e energia para seu desenvolvimento. Ou seja, tudo a ver com a nossa realidade! #sqn kkk
- Mulheres... Bem, já comentei que me incomoda a falta de mulheres protagonistas nas histórias de Asimov, o que encaro como uma falta de sensibilidade ao fato de que cada vez as mulheres assumem mais espaço na sociedade - o que torna uma sociedade futurista com apenas homens no poder e na pesquisa um contrassenso. A figura de Susan Calvin, fria e masculinizada, me incomoda (parece que uma mulher inteligente não pode ser bela/feminina) mas uma frase de Robbie ilustra bem o que penso
"George Weston era, afinal de contas, apenas um homem, coitado; e sua mulher se valia de todo e qualquer artifício que um sexo mais inábil e mais escrupuloso [logo as mulheres são mais hábeis, mas também sem escrúpulos] aprendeu, com razão e inutilidade, a temer." (p.30)
- Em Razão, há um robô religioso que se baseia apenas na racionalidade (!). Parece estranho, mas lembra a ideia da ciência e racionalidade como um culto... Em certo ponto as personagens afirmam que aceitar algum postulado (racional) é um ato de fé; mostrando que nem sempre a razão é tão fria e lógica quanto parece.
"Pode-se provar qualquer coisa que se queira com a razão friamente lógica... se forem escolhidos os postulados apropriados. (...) Postulados são baseados em suposições e são aceitos por uma questão de fé. Nada no Universo pode abalá-los." (p.97)
- Em Um robozinho perdido, ao discutir o que acontece se forem produzidos robôs que não seguem as Três Leis da Robótica (que é a única coisa que permite esse futuro tão otimista de Asimov) são expostas as consequências de uma sociedade sem uma "base moral": caos, desordem e conflitos.
Agora meus planos para o futuro incluem aproveitar as férias para ler os livros do "Bom Doutor" e imaginar outros futuros possíveis para a humanidade. 😊


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