Morte em Pemberley - P.D. James


Imagine a junção entre romance policial e Orgulho e Preconceito - mix de Orgulho Preconceito e outros gêneros está na moda com Orgulho, Preconceito e Zumbis.
Aqui P.D. James se propõe a nos contar o que aconteceu com as personagens de Jane Austen seis anos após os eventos da obra original. Encontramos Elizabeth e Darcy casados, pais felizes e senhores de Pemberley; Jane e Bingley estão casados e com seus pequenos e moram próximo aos Darcy. Lydia continua sendo a irmã tola, falante de sempre, ela e seu Wickham continuam os mau caráter de sempre; Kitty não se casou e é a única irmã que ainda está em casa, já que Mary se casou com um pároco tão tedioso em seu discurso quanto ela.
A vida parece feliz para todos, até que às vésperas do baile de outono ocorre um incidente: Lydia (que não era bem vinda em Pemberley) aparece enlouquecida, dizendo que havia ocorrido uma discussão entre Wickham e Denny (amigo de Wickham já em Orgulho e Preconceito) e seu marido havia sido morto nas florestas da propriedade. Os homens da casa logo partem para buscar os briguentos, crendo que tudo não passava de imaginação de Lydia; qual não é a surpresa quando encontram Denny morto e Wickham a seu lado, afirmando ser tudo culpa dele.
A partir desse ponto a autora segue sua narrativa, tentando juntar elementos de romance policial e Jane Austen.
Na verdade, a trama gira mais em torno de se Wickham será inocentado ou não do que de quem matou Denny, já que desde o início é deixado claro que não podia ter outra solução.
P.D. James também faz referência a outras obras de Austen, como Persuasão e Razão e Sensibilidade - ainda que a referência seja bem sutil.

No geral, a história me empolgou muito na primeira parte mas não gostei tanto do resultado final: a trama policial é lenta, não sabemos o que é evidência e o que são detalhes úteis apenas a trama romântica em paralelo - já que a autora cria um triângulo amoroso entre Georgiana (a irmã de Darcy, para quem não se lembra), o coronel Fitzwillian (primo dela) e um jovem advogado Alvenston. Em certo ponto há vários detalhes sobre o sistema judiciário inglês, repetição do que já foi dito anteriormente; não sou fã de Agatha Christie, mas no final de suas histórias sempre conseguimos seguir o raciocínio do detetive e compreender que todos detalhes para a solução sempre estiveram ali, nesse livro isso não é possível. Eu consegui até supor algumas coisas durante a leitura, mas o fechamento do mistério está ligado a fatos desconhecidos ao leitor.
Com relação a trama de romance, a autora fez alterações em alguns personagens:

  1. Elizabeth não é mais a mulher forte e ácida que vemos em Orgulho e Preconceito. Ela é cheia de medos, receios e faz algumas declarações que não imagino na boca de Lizzie.
  2. Darcy chega a questionar seu amor por Lizzie!!!! Ele reflete que deveria ter sido mais firme em não se sujeitar ao amor que sentia, pois assim não teria Wickham como parente.
  3. O coronel Fitzwillian não é mais o homem galante, oposto a Darcy, mas sim um caçador de esposas - seu irmão mais velho morreu e ele se tornou o visconde de Hartlep. A autora usa o pressuposto que ele não se casou com Lizzie em Orgulho e Preconceito não porque queria evitar a pobreza mas também por desprezar a posição humilde de Elizabeth.
  4. Charlotte é apresentada não como a jovem obrigada a se casar, incompreendida pela amiga. Ela é tão falsa quanto o sr. Collins, vingativa e fofoqueira... Detestei essa mácula que autora inventou sobre essa personagem.
Outro problema são histórias "mal aproveitadas" na subtrama. O triângulo amoroso em volta de Georgiana é logo resolvido e a garota, que parecia ser uma personagem bem importante logo desaparece nas páginas do livro. Há também os Bildwell, uma família de criados que tem muita história em torno deles - seu filho Will está muito doente, Louisa é uma garota inteligente que o pai a priva da chance de estudar, a irmã mais velha parece envolta em mistério. A importância deles na trama aparece no final (literalmente) e a história deles perde importância dentro de Morte em Pemberley.
Além desses problemas o livro peca num ponto onde Austen acaba se destacando na minha modesta opinião: cadê a discussão sobre questões da sociedade de seu tempo? Austen consegue dentro da trama de Orgulho e Preconceito mostrar como é duro ter como melhor objetivo de vida o casamento; não ter direito a herança e ser uma pessoa de segunda classe. Ela põe lado a lado tipos femininos bem diferentes, com a amável Jane, a ácida e inteligente Elizabeth e as frívolas Sra. Bennet e Lydia.
Aqui temos apenas mulheres cheias de bondade, com minha querida Lizzie reduzida a mera dona de casa - nem parece a mulher que chocou Lady Catherine com sua cultura. Aliás, as mulheres da trama mal aparecem, são fracas, manipuláveis e histéricas...
Havia muito a discutir: a participação da mulher em temas vistos como inapropriados (há em certo ponto uma discussão entre o coronel, Georgiana e Darcy sobre a necessidade de afastar a srta. Darcy do ambiente carregado de Pemberley); as limitações impostas pela classe social de alguém (a história de Louisa e do próprio Wickham seriam úteis nesse sentido).
Bem, não nego que a história é divertida,e é interessante saber o que ocorreu após o Orgulho e Preconceito; mas não deixo de achar justo o pedido de desculpas de P.D.James a Jane Austen.

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