Guerra do Velho - John Scalzi


"No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo de minha esposa e depois entrei para o exército." (John Scalzi, Guerra do Velho)

Imagine que tenha 75 anos (caso ainda não tenha) e que possa, graças a sua idade se alistar no exército. Qual seria sua reação? Talvez seja a do meu pai quando leu a capa de Guerra do Velho: "75 anos, no exército? Como?".
Mas essa não foi a reação do protagonista do livro de John Scalzi, que faz parte de uma série de 09 livros - dos quais apenas o primeiro já foi traduzido para o português.
Acompanhamos John Perry, um americano de 75 anos que se alista no exército... Na verdade nas FCD, Força Colonial de Defesa. O que eles fazem? Protegem colônias humanas... No espaço! rs
A história se passa num futuro distante, pós Terceira Guerra Mundial. Os humanos finalmente conseguiram atingir outros sistemas planetários graças a tecnologia do salto (lembrou do Asimov, né?!) só que tem um problema: a maioria desses planetas já é habitado por civilizações alienígenas nem sempre amigáveis.
Quem protege as colônias e, indiretamente, a Terra de vizinhos não confiáveis são as FCD; vistas no planeta como cheia de mistérios, tecnologia de ponta - e tão cara que levou a GE à falência tentando copiar a tecnologia do "pé de feijão", espécie de elevador que leva pessoas da Terra às bases da FCD.
Não espere ver muita coisa sobre como seria nosso futuro aqui no nosso planeta natal, pois o autor usa apenas comentários da personagem principal e narrador dessa "space opera" para nos dizer o que aconteceu.
Sabemos da Terceira Guerra Mundial, que envolveu Estados Unidos e Índia - não preciso dizer quem venceu né?! (rs). Não vemos tecnologia de ponta, quando o narrador fala do seu tempo na Terra não há carros voadores e os únicos países descritos com super população são a Noruega (whats?!) e Paquistão - diferente do Asimov, que pinta um futuro cheio de tecnologia e quem gente de sobra no planeta.
Depois dos terráqueos alcançarem o espaço, a poucos é permitido o privilégio de viver lá, apenas cidadãos dos dois países citados podem migrar para serem colonos; os demais só podem fazê-lo após os 65 anos, para servir no exército - em ambos os casos a pessoa nunca mais volta a Terra, os velhinhos são dados como mortos aqui.
Perry é um homem viúvo, ele e sua esposa se inscrevam para a FCD com 65 anos mas ela morreu antes de se apresentar - quando se completa 75 anos. Isso de certa forma marca a personagem e achei muito bonito o amor deles; Scalzi não é idealista ao falar do casamento deles e foi isso que me fez achar mais agradável (e palpável) a narrativa.
Ele parte da Terra e logo faz amizade com um grupo de outros idosos, provenientes de várias partes dos EUA, os quais se intitulam "Velharias".
Há vários comentários entre eles de como seriam preparados para a guerra, já que era óbvio que não podiam usá-los como estavam e no contrato que eles foram obrigados a assinar com a FCD dizia que eles permitiam qualquer aprimoramento necessário para prepará-los.
Inicialmente pensei que era algo do tipo "Avatar" ou algum processo de rejuvenescimento, que é o palpite do grupo. Mas [isso não é spoiler, pois está no começo do livro] eles recebem um corpo novo, cheio de aprimoramentos que dão a eles uma aparência nada humana em algum sentido e de perfeição em outro - como uma beleza plástica, uma das mulheres comenta que nunca foi tão bonita e atraente.
Com seus corpos novos e cheios de energia (eles viram praticamente super herois) eles partem, após treinamento, para uma guerra selvagem e bem cruel... Mas algo interessante sobre os alienígenas de Scalzi: eles são MUITO mais humanos do que parecem.
O autor usa a narrativa de uma maneira suave para uma crítica a sociedade, seus extraterrestres são, no fundo faces da humanidade: religiosidade cega, maldade sem limites, egoísmo.
Na parte do treinamento ele choca o leitor com a descrição dos atos de uma espécie alienígena que a primeira vista parece inocente e bondosa: eles invadiram uma colônia humana, mataram e comeram a maior parte dos homens, selecionaram alguns para retirar o esperma deles, e utilizaram o esperma para fertilizar as mulheres e gerar bebês para virar comida - hamburguer, nas palavras da militar que conta a experiência aos recrutas. Não é a descrição exata de uma fazenda de gado?
Em outro trecho a FCD ataca um planeta para fazer com que os moradores não possam continuar investindo na tecnologia espacial, mesmo sem eles se revelaram agressivos a humanos. Não é o objetivo de muitas guerras, provocar atraso tecnológico no inimigo?
Então, de certa forma é o homem sendo homem em todos os lugares e em todos os tempos.
O estilo de narrativa é simples, não há palavras difíceis ou um excesso de explicações - mas também as que ele faz são chatas demais e, francamente, achei muito sem sentido e desnecessária a explicação do "salto"... Não sei se ele vai usar isso nos outros livros da série, caso contrário não precisava dizer isso.
Outro ponto: ele não tem dó de matar personagem. Tem autor que descreve um cenário de catástrofe e, milagrosamente, todo mundo sai bem de lá... O Scalzi é bem realista. É uma guerra e não faz sentido num grupo grande como os Velharias todos voltarem vivos, apenas lamentei muito a última morte que foi de uma personagem muito cativante - não direi quem para não dar spoiler.
Enfim, este é um livro divertido e que pode gerar boa dose de reflexão... Mas sem ser piegas.
Boa leitura!

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