O Pacifista (John Boyne)
Mais um livro do John Boyne lido... Já li O Menino do Pijama Listrado (o primeiro dele que li) e O Palácio de Inverno. Os romances dele sempre tem um fundo histórico, mas não são chatos de ler, pois ele não recheia sua história de personagens famosos, datas e descrições, a história serve realmente como pano de fundo aos dramas e alegrias das personagens.
Em O Menino do Pijama listrado conhecemos um garoto filho do diretor de um campo de concentração na Alemanha nazista; em O Palácio de Inverno somos apresentados a um russo que vivencia a Revolução Russa, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria com sua esposa. Nesse romance Boyne nos apresenta Tristan Sadler, um jovem que vai para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial - para aqueles que não sabem, esse conflito teve um período muito longo em trincheiras, o que o autor retrata bem.
Encontramos Tristan em plena viagem para Norwich, na Inglaterra; ele mora em Londres e está indo se encontrar com Marian, a irmã de seu amigo morto durante a guerra, Will Bancroft. Ele tem um conjunto de cartas de seu irmão que deseja devolver à jovem, contudo fica claro para nós que ele também tem o desejo de revelar algo muito perturbador.
Enquanto acompanhamos Sadler em Norwich, vemos suas memórias da guerra, que nos são contadas de maneira não linear. Vemos sua chegada para o treinamento em Aldershot, como conhece Will sua relação com ele e os outros recrutas; o combate e memórias de sua infância - propositalmente dispersas dentre as outras.
Algo fica subentendido desde o início do livro e vai se tornando cada vez mais claro até ser óbvio: Tristan é homossexual. Em um período onde ser gay era crime (atentado violento ao pudor), Tristan paga um preço elevado por ser homossexual - rejeição familiar, isolamento, solidão. Ele já havia sido apaixonado por seu amigo de infância (Peter Wallis) e durante Aldershot se apaixona por Will, que em alguns momentos o aceita e outros rejeita com veemência (que beira a crueldade, na minha opinião).
Mas quem é Will? Ele é quem dá título ao livro, o pacifista se refere a ele. Will luta para manter sua dignidade mesmo em um ambiente tão sórdido quanto a guerra, é amigo dos rejeitados (como Tristan e outro jovem, Arthur Wolf), o bom político... Todos gostam de Will, que é simpático, belo, inteligente. Em alguns momentos sua personalidade bondosa é atribuída ao fato de ser filho de um reverendo, mas pode-se também dizer que é consequência da família feliz e equilibrada que ele cresceu - como Tristan descobre após a guerra.
Mas claro que ninguém é perfeito. Will corresponde em vários momentos ao amor de Tristan, inclusive fisicamente; mas logo em seguida age com nojo para com ele, chegando inclusive a dizer a sua irmã que ele havia morrido em batalha. Em dado momento ele chega a dizer que tem nojo dele, que teve relações com ele apenas para se satisfazer... Que a amizade deles era baseada apenas na dó que ele tinha de Sadler.
Mas o próprio Tris (como Bancroft o chama) também não é perfeito, revelando em vários momentos um ciúme possessivo de Will, além de um covardia que chega a irritar em alguns momentos. Sempre que se pede um posicionamento firme da personagem, ele prefere salvar sua própria pele (como chega a afirmar em dado ponto da narrativa); quando toma alguma atitude é de maneira impulsiva, o que deixa sempre algum sinal nele.
Outra personagem interessante é a própria Marian, que vai se revelando aos poucos dentro do romance. Se em parte ela é a frente de seu tempo, em parte ela é vítima de seu tempo. Independente, inteligente e sonhadora, por outro lado irritadiça e rebelde; ela acaba sendo vítima de uma sociedade onde a mulher é pressionada a manter-se abaixo dos homens, é retratada de forma caricata, pressionada a casar-se. Ela, assim como Sylvia Carter (amiga de infância de Tristan) acabam se apaixonando por ele e acabam marcadas por essa paixão frustada.
Há ainda mais uma personagem interessante, James Clayton que é comandante de Tristan e Will. Ele é a encarnação do senso comum do período... Irritadiço, sempre gritando e claramente perturbado pela guerra é uma imagem do "homem monstro". Logo no início da obra, há certa suspeita sobre sua relação com a morte de Arthur Wolf que não iria lutar por ser "opositor de consciência" (aqueles que se recusavam a lutar devido seus padrões morais).
Por fim, mais uma vez John Boyne me trouxe uma boa história... Gostei que ele trouxe temas delicados (homossexualismo, "heroísmo" de guerra, feminismo, morte) de uma forma leve, mas ele consegue colocar o leitor no lugar das personagens e há certa empatia entre o leitor e o ferido Tristan, a infeliz Marian ou o pacifista Will.
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