Cartas de um Diabo a seu Aprendiz - C.S. Lewis
A primeira vez que li esse livro foi em 2014, lembro que comprei o livro em um evento da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) junto com um exemplar de As Crônicas de Nárnia. Voltei para casa abraçada com os livros, que tenho até hoje.
Recente fiz uma releitura por causa do clube do livro que estamos fazendo com os jovens da minha igreja e percebi que não havia resenhado a obra ainda. Sendo assim resolvi sentar após a leitura e escrever essas linhas aqui.
Possuo a edição da Martins Fontes, igual a que usei para ilustrar o texto, o que pode gerar algum estranhamento nos leitores pois existem diferenças no nome das personagens apresentadas; mas o conteúdo, temas abordados e estrutura é a mesma.
O livro se trata de um romance epistolar, onde acompanhamos uma troca de cartas entre um diabo (Fitafuso ou Screwtape) e seu jovem aprendiz (Vermebile ou Wormwood), onde o primeiro dá conselhos sobre a maneira como Vermebile pode ser mais eficiente em conduzir um humano (chamado apenas de Paciente) a perdição.
Lemos apenas as cartas de Fitafuso, sendo que vamos inferindo o conteúdo das missivas de Vermebile a partir das respostas recebidas - interessante que o próprio Lewis tinha o hábito de queimar as cartas recebidas, sendo que atualmente temos apenas as cartas que ele enviou.
No final da obra há um capítulo adicional chamado "Fitafuso propõe um brinde" que, na minha opinião é a melhor parte da obra; nele vemos comentários bem pertinentes a sociedade que vemos atualmente - parece que o autor está vivo, caminhando nas ruas, lendo os jornais e usando nossas redes sociais de tão atuais os temas abordados.
Cada carta traz praticamente um tema central, sendo que muitas falam de como nossas relações podem influenciar nossa fé, como podemos ser engolidos pela rotina, pelo medo e pela ansiedade. Para aquele que é cristão, é fácil perceber como a conversão é apenas o primeiro passo em direção a uma série de provações que culminarão em um fim glorioso.
Talvez haja uma certa dificuldade em leitores que, assim como Tolkien, não se sentem a vontade com a ideia de ridiculizar o diabo; também é importante frisar a presença do humor ácido inglês nessa obra. Sendo assim é óbvio que tudo aquilo que Fitafuso elogia e engrandece é algo digno de vergonha.
Para mim isso ficou bem claro em "Fitafuso propõe um brinde", que não se trata de uma carta mas sim do "diabo sênior" fazendo um discurso na academia de tentadores onde ele lamenta a ausência de grandes pecadores, mas elogia a presença de muitos pecadores; falando muito sobre pequenos erros diários que, com um verniz de civilidade, passam despercebidos.
O trecho final do discurso é sobre a democracia, onde o tentador faz um longo elogio ao sistema; na primeira vez que li fiquei muito confusa - "seria Lewis um ditador?". Porém nessa releitura entendi que a crítica é a ideia de que todos devem ser literalmente iguais, eliminando dons e talentos que nos tornam únicos em prol de uma homogeneização da população.
Enfim, um dos méritos da obra é ser atemporal, além de que o fato de lermos apenas as cartas de Fitafuso sempre geram uma ansiedade para sabermos o que aconteceu entre uma carta e outra - o Paciente caiu na cilada? Como vai o relacionamento dele com a moça cristã?
Encerro com minha citação preferida da obra, onde o Fitafuso elogia o vinho Fariseu servido no banquete.
A fina flor da profanação só cresce se for plantada perto do Sagrado. Em nenhum lugar é tão bem sucedida quanto nos próprio pés do altar. (C. S. Lewis)
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| Foto de Levent Simsek: https://www.pexels.com/pt-br/foto/interior-do-antigo-palacio-islamico-com-cupula-ornamental-4365100/ |


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