Persuasão - Jane Austen


Parece que minhas férias tem sido convidativas a uma autora: Jane Austen. Já li a "fanfic" de P.D. James, Morte em Pemberley; pretendo reler Orgulho e Preconceito, bateu uma saudade de Razão e Sensibilidade e terminei de ler há alguns dias Persuasão.
Essa é a última obra da autora e foi publicada postumamente, na edição que li vem até um "final alternativo" que a autora não curtiu muito - mas não altera o final em si, o que é diferente é a maneira como as coisas se arrumam.
O romance conta a história de Anne Elliot, segunda filha de sir Walter Elliot; um homem mesquinho e superficial, que adora o que é belo (principalmente ele mesmo), títulos de nobreza e honrarias. Por não possuir a beleza que seu pai julga adequada, é sempre desprezada dentro de casa enquanto que todas as atenções se voltam para a filha mais velha, Elizabeth; seu pai inclusive havia tentado um matrimônio entre ela e seu herdeiro, William, mas não obteve sucesso.
Anne tem como única amiga lady Russell, que fora amiga de sua mãe e mantivera um forte vínculo de amizade com sir Walter. Apesar da heroína vê-la com bons olhos, no fundo ela é uma mulher bastante arrogante, mas ama perdidamente Anne, vendo nela o resquício da sensatez e espírito nobre da finada lady Elliot.
Além de Elizabeth e Anne, há também Mary, a única irmã casada. Ela pode não ser tão arrogante quando a primogênita, mas é hipocondríaca e tem mania de perseguição, gosta sempre de ser honrada e se sente muito superior a família de seu marido - que é um rico herdeiro de terras, mas sem nenhum título de nobreza.
No início da história encontramos sir Walter chegando a conclusão que está falido (devido seus gastos exorbitantes e sua falta de sabedoria), para não ter de suportar humilhações maiores pede conselho a lady Russell e ao sr. Sheperd. Os amigos o aconselham a alugar sua propriedade e mudar-se para Bath, onde poderia morar de aluguel e com menos criados sem levantar suspeitas sobre sua situação econômica.
O conselho é aceito e logo sir Walter e Elizabeth partem para Bath; contudo Anne não gosta do lugar e, aproveitando uma oferta de lady Russell e um pedido de Mary, permanece mais um tempo na região.
Paisagem de Bath
(Por Jürgen Matern - Obra do próprio (JMatern_060806_0993-1005_WC.jpg), CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4071694)

Anne fica um tempo com sua irmã, que jura ser pouco estimada pela família do marido e que seus filhos só a atormentam - na verdade são crianças mal educadas mesmo. Os Musgrove são simpáticos, falantes e talvez não muito cultos; mas apreciam festas, boas companhias e não desprezam Anne - em quem eles veem uma bondade e ternura sem limites.
Enquanto está em Uppercross Hall (onde vivem os Musgrove) acaba encontrando os locatários da propriedade de sua família, os Croft. Não haveria nada demais nesse encontro se não fosse um detalhe: a sra. Croft é irmã do ex-noivo de Anne, Frederick Wentworth; apesar das tentativas de Anne o encontro é inevitável, contudo Frederick aparenta calma e frieza diante do passado conhecido por poucos.
Anne Elliot e Frederick haviam se conhecido mais jovens, quando ela tinha apenas 19 anos, e se apaixonaram imediatamente. O noivado não encontrou resistência direta de sir Walter (apenas críticas as condições econômicas do noivo) mas Anne foi bombardeada pelas críticas de lady Russell, que via um simples marinheiro como uma união inadequada à filha de um baronete e o caráter de Wentworth, capaz de lutar para conseguir ascensão na Marinha, foi apontado como um péssimo defeito.
Diante da pressão, a protagonista cede e desmancha o noivado - não é a toa que Frederick a considera fraca e se sente ferido por sua ex-noiva ter cedido a conselhos. Lady Russell tinha esperança de um bom casamento para Anne, contudo o pedido de casamento seguinte foi de Charles Musgrove, recusado por não ser um nobre - novamente um conselho da amiga de Anne.
Apesar da frieza, o antigo casal sobrevive aos encontros na casa dos Musgrove e Frederick, belo e solteiro, atraí a atenção de Henrietta e Louisa, irmãs de Charles. As duas moças são descritas como simpáticas, alegres e bem expansivas; elas estudaram em uma "escola de moças", o que não lhes traz muita cultura, mas sim conhecimento sobre várias inutilidades e prendas - Jane Austen critica em vários livros e educação dada às mulheres de seu tempo.
Quando surge oportunidade, o grupo vai a Lyme onde conhecem o capitão Harville e sua esposa, antigos amigos dos Croft - o sr. Croft é almirante, tendo vários amigos e sendo homem de muita conversa, sua esposa é a pessoa mais prudente da relação mas também é alegre e simpática. Na cidade também conhecem o capitão James Benwick, que fora noivo da irmã de Harville a qual havia falecido há pouco tempo.
Benwick, dado as leituras e de personalidade deprimida, aparenta interesse por Anne; enquanto que Louisa, de personalidade imprudente, acaba sofrendo um acidente grave. Devido os arranjos gerados pelo acidente de Louisa, o capitão Wentworth deixa o grupo, indo visitar seu irmão e Anne retorna a Uppercross, onde encontra lady Russell para juntas irem a Bath.
Chegando a cidade, encontram outro homem interessando em Anne: William Elliot, seu primo e herdeiro de sir Walter. Logo lady Russell se alegra, julgando ter encontrado um homem digno de Anne - considera que o novo comportamento dele perdoa a atitude de romper relações com sir Walter anos antes.
Anne estranha o comportamento do primo e não sente interesse por ele. Na verdade fica curiosa para saber como havia mudado tanto e havia se esquecido facilmente de sua primeira esposa, falecida há pouco.
As respostas chegam a heroína de uma maneira diferente, pois ao chegar a cidade descobre que ali estava uma antiga amiga, sra. Smith. Elas haviam estudado na mesma escola e a amiga a havia consolado da perda da mãe; depois de deixar a escola havia se casado e, devido o estilo de vida leviano dela e do marido, havia ficado pobre e desamparada após ficar viúva.
Sra. Smith revela várias falhas do sr. Elliot, como seu amor ao dinheiro e como havia prejudicado seus interesses quando ela ficou viúva e doente.
Após um tempo chega a notícia do noivado de Louisa e Benwick e os próprios Musgrove vem a Bath, aproveitando para comprar o vestido de noiva das filhas - Henrietta tinha um compromisso não declarado com seu primo, Charles Hayter, que se transforma em noivado após as "inteferências" do capitão Wentworth.
Não demora para que Anne encontre seu antigo noivo, que se mostra ainda apaixonado mas enciumado da relação dela com o primo. Após idas e vindas fica acertado o final feliz, onde Anne e Frederick finalmente se casam.

Alguns pontos que achei interessante foram:

  1. O choque da nobreza diante da ascensão social de pessoas que não compartilham sua origem "superior" - sir Elliot revela seu desprezo pelas Forças Armadas por permitir honra e ascensão social a pessoas de origem humilde; o que é péssimo sob seu ponto de vista. Não é o que vemos hoje, com pessoas chocadas quando alguém de posição social inferior alcança uma posição de maior prestígio?
  2. O amor a vaidade - sir Walter e Elizabeth protagonizam várias cenas ridículas devido a adoração a sua aparência, a títulos e nobreza, inclusive humilhando-se à lady Dalrymple, uma viscondessa que é sua prima. Além disso toda sua satisfação e avaliação das pessoas está relacionada a aparência; o caráter e valores não são importantes diante da beleza e títulos. Hoje a aparência e dinheiro são mais que cultura e valores, de maneira geral; importa o parecer ser/ter, não ser algo de fato.
  3. A mulher na sociedade - há muitas discussões sobre as mulheres nas obras de Jane Austen, alguns a consideram muito conservadora pois suas heroínas são dependentes do casamento e as histórias giram em torno da busca da mocinha pelo amor. Mas também ela faz críticas, ainda que indiretas, a maneira como as mulheres são educadas e vistas na sociedade - há uma conversa onde Anne Elliot afirma que o caráter creditado a mulher está relacionado ao seu papel extremamente restrito na sociedade. Quando fala a respeito de lady Russell, a autora frisa que a sociedade julga mal as viúvas que se casam novamente, mas não faz o mesmo com os homens.
No geral, gostei do livro; mas confesso que me irritei com a fraqueza de Anne ter cedido aos conselhos de lady Russell, e a justificativa que ela dá no final, que fez o melhor que podia na época, é péssima - era mais fácil dizer que ela confiou em alguém que não queria ela bem coisa nenhuma porque se lady Russell gostasse tanto assim dela ficaria feliz por vê-la fora de um lar onde não era amada.
Mas tirando a revolta inicial, o livro é muito bom e com o tempo você cria muita simpatia pelos Musgrove.

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