Persépolis - Marjane Satrapi

Bem amigos, cá estou eu de novo para falar de mais um livro lido. Persépolis pertence a categoria de "livros que quero muito ler mas tenho medo de gastar dinheiro nele" - sim, tenho essa categoria de livros, onde estão todos os livros do Nicholas Sparks.
A primeira vez que ouvi falar do livro foi há anos atrás, quando o filme baseado nele concorreu a uma premiação - se não estiver enganada, o Oscar. Fiquei curiosa para ler a história da autora iraniana, principalmente pela forma como ela se propõe contar sua história de vida: quadrinhos.
Apesar da curiosidade, demorei um bom tempo para me render ao "Projeto Persépolis" (que incluía achar/comprar o livro, ler o livro) pois sempre tive um certo preconceito com biografias, se você for olhar minha lista de leituras verá apenas duas sendo que uma (a de Marie Curie) nem terminei. Biografias podem ser absurdamente chatas, paradas, fixas em pontos chatos da vida do biografado - basta ver por sua própria vida, provavelmente dos 365 dias do ano, apenas alguns poucos são realmente interessantes a ponto de um desconhecido se interessar.
Mas a autora consegue não ser tediosa, Marjane não narra exatamente seu dia a dia mas segue meio que um "apanhado de memórias" que formam sua biografia. Como se sua vida fosse feita de quadros, de capítulos onde ela é a personagem principal.
A obra se inicia contando um pouco da história do Irã, com uma introdução de outro autor - mas a própria Marjane se preocupa em contextualizar várias partes, não deixando o leitor perdido ou pronto a aplicar um julgamento pré-concebido a respeito da atitude das pessoas ao longo da narrativa.
Uma vez que o leitor está contextualizado, ela narra várias cenas de sua infância bem como a maneira como a Revolução Islâmica afetou sua vida - devemos lembrar de que ela é uma mulher, educada com princípios bem liberais (ela estudou em uma escola francesa antes da Revolução fechar escolas estrangeiras), e com princípios socialistas inclusive.
Não vou me ater a detalhes, mas através dos pontos que ela escolhe narrar de sua infância dá para ter uma ótima ideia de como a política do país influenciou a vida privada das pessoas, além de quebrar alguns preceitos - de que o xá era uma vítima pobre e indefesa dos aiatolás, por exemplo.
Conforme ela vai "adolescendo", ela começa a se revoltar com várias coisas em seu país, como regras sociais (tem uma cena em que ela é parada na rua por estar com roupas muito ocidentais) e com a falsa história do país contada nas escolas - um de seus tios foi morto pelo regime e ela tem muito orgulho das raízes "revolucionárias" de sua família.
Diante desse cenário, os pais resolvem enviá-la para estudar no exterior pois temem que tipo de punição pode recair sobre ela por suas pequenas revoltas. Assim uma nova fase da história de inicia com Marjane deixando o Irã rumo a Áustria, para estudar em um Liceu francês.
Na Europa ela tem contato com a cultura ocidental, se choca em vários momentos com usos bem diferentes daqueles que está acostumada - casais se beijarem em público, sexo fora do casamento, uso de drogas, rebeldia contra os pais.
Ela permanece vários anos no exterior, mas aos poucos vai entrando em decadência, devido o afastamento dos pais, choque com uma cultura da qual ela não faz parte (por mais ocidental que seja), isolamento social - chega um ponto em que ela não tem mais amigos, pois todos deixaram a escola em que ela estudava.
Nesse período ela se envolve com dois homens, o primeiro namorado se revela gay após um tempo de relacionamento; o outro acaba traindo-a. Esses fracassos pessoais, junto com o uso de drogas acaba levando Marjane a depressão e a situação de rua - sim, ela foi morar na rua por conta de uma decepção amorosa.
Depois de ficar doente e se dar muito (muito!!!) mal, ela decide regressar ao Irã. Voltando ao seu país, ela encontra um cenário bem diferente do que deixou - enquanto ela estava na Europa, transcorreu a Guerra Irã-Iraque por exemplo.
Seu país está mais pobre (como já deu para perceber, a família dela não é nada pobre... mas mesmo eles perdem dinheiro nesse período), o regime está mais opressor e seus conhecidos tomaram rumos bem diferentes - alguns foram lutar na guerra e voltaram feridos, suas amigas se ocidentalizaram e se tornaram mulheres fúteis.
A autora tem de novo que lidar com seus conflitos interiores, pois aos 19 anos percebe que realizou pouco da vida, além de não ter gerado resultados tão satisfatórios quanto esperava, a seus pais.
Após passar por uma "revolução" em sua vida, como tentativa de mudar de vida e deixar a depressão para trás, ela conhece seu marido (Reza) em uma festa.
Depois que engatam o namoro, eles estudam e conseguem entrar em uma universidade (eles estudam artes) e tendo como pano de fundo o ambiente universitário, que deveria ser mais liberal, Marjane acaba mostrando a maneira como o regime afetou a vida privada das pessoas.
Você acaba percebendo que todo mundo tem que abrir mão de algo importante, ou viver uma vida dupla. Marjane e Reza, por exemplo, tem relações sexuais, mas não podem permitir sequer que venha a público seu relacionamento para que não corram o risco de serem punidos; os estudos de anatomia, naturais em um curso de arte, são prejudicados pela proibição de que o modelo esteja nu.
Assim, pouco a pouco surgem "pequenas revoluções". A autora e seus amigos passam a se encontrar na casa uns dos outros para desenharem-se, darem festas e se relacionarem - que rende vários problemas, pois o governo controla e impede festas regadas a bebidas e com encontros de solteiros.
Diante de uma cenário de limitações, Marjane e Reza se casam para facilitar suas vidas - poderem se ver em público, viajarem juntos. Como é de se esperar, não dá certo... E quando percebe que seu divórcio pode trazer várias implicações pessoais, devido a cultura de seu próprio país( o divórcio lá só é permitido ao homem; a mulher só pode pedir se o marido permitir no casamento), Marjane decide que é hora de deixar não apenas o marido mas o Irã para sempre.

Gostei muito da leitura de Persépolis, mas demorei um bom tempo para ler. Não porque a linguagem é difícil, muito pelo contrário, mas sim porque é um livro "pesado"... A cada ato de rebeldia da Marjane eu ficava esperando ela ser presa, receber chibatadas ou coisas do tipo, isso tornava a leitura estressante e um pouco tensa, por isso eu não conseguia ler muito em um dia só.
É interessante, porque acho que esse era o clima em que ela mesma sentia nas cenas que ela estava mostrando para a gente - a qualquer momento algo podia dar errado, ela deixa bem claro quais as consequências desse algo errado.
Também é interessante refletir sobre um fato: ela acaba se "dando bem" por ser rica. Se ela fosse de uma camada mais pobre não poderia partir para morar no exterior com tanta facilidade, não poderia ficar indo em festas (pois cada vez que ela era presa por estar em uma festa, seus pais tinham que pagar uma fiança elevada), provavelmente não poderia estudar. Então a situação dela, por pior que tenha sido, foi bem facilitada por sua classe social - então imagine uma mulher pobre no Irã.
Então eu indicaria ele meio como "livro de cabeceira", igual uma Bíblia... Cada dia você lê um pouquinho e absorve.

Comentários

  1. Você tem uma boa sensibilidade aos livros que lê. Deixa a pessoa com vontade ler os livro que você comenta.

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