Se um viajante numa noite de inverno - Italo Calvino

Esse foi o primeiro livro desse autor que li, gostei tanto que já li e estou lendo outros livros dele - como "Castelo dos Destinos Cruzados", "Um General na Biblioteca" e "Os Amores Difíceis". Mas, apesar de ter lido( e estar lendo) outros livros dele, esse ainda é o melhor.

Sabe aquele livro que você vê na prateleira da biblioteca e pensa “o dia em que estiver com MUITA paciência lerei”? Esse livro pertence a essa categoria, não nutro muita simpatia por autores latinos – suas obras costumam ser “pesadas”, cheias de crítica social e política, e mesmo o mais politizado leitor há de convir que nem sempre estamos dispostos a esse tipo de obra. Porém “Se um viajante...” me surpreendeu, ele cumpriu a missão que constava na orelha do livro: salvar o leitor de bons romances.

Essa foi uma obra que gostei tanto que pertence agora a categoria dos “livros a comprar”. A narrativa é leve, ágil e cativante – é tipo de livro que te deixa curioso para ver o que acontece em seguida, mas, ao mesmo tempo, te faz ler ele devagar, para não acabar. Não é “chato”, mas também não é um livro “raso”, comercial e que não te acrescenta nada.

A personagem central é o Leitor, sem nome e sem rosto, um homem comum que compra um livro( que dá título a obra) e se sente muito satisfeito por isso, além de imensamente curioso. Se no início o autor funde nós, os leitores, com sua personagem; logo nos sentimos um curioso, olhando para outros mundos através da janela aberta pela personagem principal do romance comprado pelo Leitor.

Mas uma infeliz( e irritante) surpresa aguarda o herói, seu livro tem um defeito de fabricação e após o fim do primeiro capítulo as páginas se repetem. Furioso, o homem vai pedir explicações ao dono da livraria, que explica que o defeito está em todo o lote e que, ao contrário do que se podia esperar, também houve a troca de título: o miolo pertencia a outra obra.

Nesse momento entra em cena a heroína, a Leitora( sim, o nome da página não foi escolhido ao acaso). Ela adquiriu o mesmo romance e decidiu comprar o livro que supostamente consiste o miolo do “Se um viajante”. Apesar de tímido, o Leitor inicia uma amizade com a Leitora, utilizando os livros como pretexto.

Porém essa não é a única obra interrompida a chegar às mãos do herói, assim a narrativa segue com uma sucessão de várias obras com leituras interrompidas – seja porque o fim não existe mesmo, sumiço do exemplar, roubo ou confisco da obra. Nós sempre estamos lendo os primeiros capítulos junto com o Leitor, sendo assim a obra é um conjunto formado pela narrativa do Leitor( onde nos fundimos a personagem) e das obras inacabadas( sempre narradas por seus protagonistas, que parecem ler as reações do leitor aos fatos).

O Leitor, homem simples e comum, pouco a pouco se envolve numa trama de mistério para tentar desvendar os segredos por detrás dos livros interrompidos. Assim conhece a Leitora( que se chama Ludmilla), por quem se apaixona; Lotaria, a irmã da Leitora; o Não-Leitor, um curioso homem que se recusa a ler de qualquer forma e é um rival do Leitor; e Ermes Marana, um editor de livros que cria várias confusões relacionadas a livros como maneira de se vingar de Ludmilla, sua ex-namorada.

O interessante é que o autor discute o ato de ler, pois cada personagem é um perfil de leitor, desde os mais experientes aos que evitam a leitura; e de escrever – de onde vem a criatividade na escrita de um romance?

Cada um dos romances interrompidos tem um perfil diferente, desde os misteriosos aos imorais( segundo uma classificação do próprio autor, em um texto no final do livro versando sobre a obra). Eles sempre se relacionam ao momento vivido pelo Leitor, o que é bem interessante.

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